Têm sido sucessivamente publidados vários estudos científicos que comprovam a eficácia da meditação para melhorar quase todos os aspetos da vida humana, o que justifica a sua proliferação à escala global. Acreditamos que se trata de uma verdadeira revolução silenciosa - uma forma de educar a mente a focar-se, a estar atenta, presente, vigilante e realmente consciente - que nos liberta da distração, da falta de atenção e da falta de compromisso, levando-nos a uma vida mais plena, mais descontraida e mais feliz.
 
A metta.pt fomenta ativamente a prática de meditação, através da dinamização de tertúlias, palestras, cursos, práticas e retiros, mas tambéms atravéz da divulgação de conteúdos informativos destidados quer aos que chegam agora a um primeiro contacto com a prática, quer aos que pretendem aprofundar os seus conhecimentos.
 
 
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A primeira edição online do curso de introdução à meditação Paz de Alma está prestes a começar, no dia 6 de Março.
É uma grande oportunidade para o teu desenvolvimento pessoal. Vamos tratar de construir em tí uma mente equanime, menos reativa. Mais tranquila e pacífica.
 
A meditação proporciona inúmeros benefícios tais como maior auto-estima, os relacionamentos, a atenção e a saúde. Como o praticante vai aprendendo progressivamente a aceitar-se, aprende a ser gentil consigo mesmo e isso proporciona grandes melhorias nas relações com os outros e com o mundo. Esta mudança de atitude interior transforma a mente, aguçando a capacidade de percepção passando a ver a realidade tal como ela é: isenta de julgamentos. Deste modo o praticante vai estar preparado para um novo entendimento do mundo e da vida.
 
Talvez o grande ponto a destacar desta formação é a de ensinar a meditação do ponto de vista prático, sem dogmas, sem misticismos nem nenhum conteúdo religioso. O praticante vai produzir em si mesmo a capacidade de entender a sua mente. E este conhecimento ficará para toda a vida.
 
E o melhor, é que é fácil começar!
 
Vê aqui a introdução do curso
 
 
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Matthieu Ricard é um monge budista, PhD em biologia molecular e escritor.

No seu mais recente livro "A revolução do altruísmo" (publicado pela editora Palas Athena), ele discute a existência de uma tendência natural do ser humano a ajudar o próximo.

O meu objectivo, ao escrever este livro sobre o altruísmo bastante focado, era em primeiro lugar mostrar que o altruísmo genuíno realmente existe, e em segundo lugar mostrar que podemos cultivá-lo, ampliá-lo.

E porquê mostrar que o altruísmo genuíno existe? Pode parecer muito óbvio pois muitos de nós, sabemos no fundo do coração que em muitas ocasiões, a nossa intenção, o nosso objectivo, é puramente levar bem-estar e alegria a alguém, ou aliviar algum sofrimento sem quaisquer intenções ou interesse próprio.

Mas, ainda assim, descobri que há muitos filósofos, pensadores, psicólogos, economista, que acreditam firmemente que não há nada além do egoísmo entre os seres humanos, Que não importa a situação, se observares cuidadosamente o comportamento, vais encontrar uma motivação egoísta. Mas também surpreendentemente, não há qualquer indício de evidência científica que possa dar suporte a essa afirmação. Pelo contrário, todo o trabalho de psicólogos como Daniel Batson e muitos outros que mostraram que, é claro que o egoísmo existe, não duvidamos disso, mas junto com o egoísmo existe também a intenção genuína de ajudar os outros a que chamamos de preocupação empática pela situação dos outros, está lá e está presente em muitas ocasiões para a maioria de nós.

Depois, o próximo ponto é: podemos ampliar isso? Bem, nós temos esse potencial, mas é como qualquer outro potencial. Nós não nascemos a saber ler, escrever ou jogar ténis ou tocar piano. Temos que treinar para aprender. Então o altruísmo, a bondade amorosa, a compaixão, a benevolência, são qualidades que fazem parte do nosso potencial, mas esse potencial precisa de crescer e isso vem com o treino.

As ciências contemplativas como o budismo e outras, ensinam como cultivar essas qualidades. E depois, os meios de investigação da era moderna como a neurociência, mostraram claramente, com o que chamamos de neuroplasticidade, que se estás a treinar qualquer coisa, o cérebro muda estruturalmente e funcionalmente. E foi demonstrado agora que, os cérebros das pessoas que treinam a meditação da bondade amorosa, estão a mudar. Os seus sistemas imunológicos estão a mudar, e agora está a ser mostrado que a expressão dos teus genes pode mudar.

Então podemos realmente tornamo-nos pessoas diferentes.

Esses dois pontos possibilitam uma mudança individual, mas também temos que ir buscar uma mudança na sociedade, e isso vem por meio da evolução da cultura.

Quando uma massa crítica de pessoas genuinamente altruístas se une e coopera, lentamente pode mudar a opinião pública. A cultura muda para que haja uma sociedade mais cooperativa. Acho que estamos nesse caminho porque é uma necessidade, uma obrigação. É uma questão de sobrevivência que nos tornemos mais cooperativos do que competitivos, devido às condições deste mudo superpopuloso.

Seria tão melhor se cooperássemos! Vê por exemplo a saúde humana com a Organização Mundial da Saúde, que não existe para o meio ambiente. Então nós temos realmente  que nos unir neste barco que é o nosso planeta, com todas as casualidades que existem, seres humanos, 1.3 milhões de espécies de animais, temos de trabalhar juntos.”

Dalai Lama

“Claro, certamente!

A compaixão ou o senso de preocupação para com o bem-estar dos outros existem em dois tipos ou dois níveis.

Um, acredito que é principalmente um fator biológico. Quando é sem haver treino é simplesmente um fator biológico. Assim como a mãe que mostra um senso de preocupação pelo seu filho. Não apenas o ser humano, mas também os animais, com excepção de algumas espécies que podem ser diferentes. Caso contrário, acho que todos os mamíferos têm este tipo de sentimento, principalmente devido a uma causa biológica, de que a vida dos mais jovens, a sua sobrevivência, depende inteiramente dos cuidados de outra pessoa, do cuidado da mãe. Por causa desta realidade, emocionalmente há um sentimento próximo, um senso de preocupação com o bem-estar deles. Este é o fator biológico.

Agora, que tens isso como uma semente, usa a inteligência humana. Muitos tipos de informações valiosas existem nesta calorosa magnamidade. Sabendo isto, então estende. Não só para os amigos, amigos próximos ou parentes mas também para os outros seres sensíveis, ou ao menos, aos seres humanos, incluindo o teu inimigo.

Agora aqui, o fator biológico, a compaixão é tendenciosa, limitada apenas aos teus parentes e amigos próximos. Porque este fator biológico de compaixão é orientado principalmente por outras atitudes. Então este tipo de compaixão não podia ser estendida ao teu inimigo porque eles te causaram problemas. Mas agora, através do treino da consciência, uma vez por dia, haverá um benefício a longo prazo. Depois, com a consciência do hábito, vamos desenvolvendo o treino. Através deste caminho, podes desenvolver um senso genuíno de preocupação com o bem-estar alheio, incluindo o do teu inimigo. A atitude deles é preocupante, causam-te problemas, mas são seres humanos. Eles também têm direito de trabalhar os seus sofrimentos.

Existem tantas razões para se desenvolver um senso de preocupação em relação aos seus problemas, aos seus sofrimentos, Este é o segundo nível. Este tipo de compaixão desinteressada, ilimitada, precisa de muito treino e consciência.”

 

Kristin Neff

Acho que poderei dizer que sou uma evangelista da auto compaixão. Adoro espalhar a bonita palavra de auto compaixão.

Dediquei os últimos 10 anos da minha carreira de pesquisa, a estudar os benefícios para saúde da mente através de auto compaixão. E, mais recentemente, tenho trabalhado e desenvolvido intervenções para ajudar as pessoas a terem mais compaixão com elas próprias nas suas vidas. E a razão, porque estou tão apaixonada por auto compaixão, é porque realmente senti o seu poder na minha própria vida.

A primeira vez que aprendi sobre auto compaixão, foi em 1997, quando terminei o meu PhD na UC de Berkeley. Estava a viver um momento mesmo muito difícil. Tinha acabado de sair de um divórcio complicado, sentido muita vergonha e culpando-me. Estava sobre muito stresse.

Acabarei o meu PhD? E se acabar, conseguirei um emprego?

Achei que seria um bom momento para aprender como praticar meditação. Desde então, inscrevi-me num grupo de meditação budista. E logo no primeiro dia, no primeiro curso, a mulher que liderava o grupo falou da importância da compaixão, não só para outros mas para nós próprios. A importância de nos incluir no círculo da compaixão, de tratar-nos com a mesma dedicação, carinho e preocupação com que tratamos um bom amigo.

Foi como se acendesse uma luz por cima da minha cabeça, naquele momento. E, inicialmente pensei : O quê? Podemos ser simpáticos connosco e isto está a ser encorajado?

Mas, depois eu compreendi que era exactamente o que precisava naquele momento difícil da minha vida. Então desse dia em diante, posso dizer que tentei intencionalmente ter mais compaixão por mim, e fez uma enorme diferença, quase imediatamente.

Felizmente, consegui um emprego, fiz 2 anos de pós doutoramento com um país que lidera a pesquisa de auto compaixão. E enquanto estava a trabalhar, comecei a compreender que a auto compaixão oferece muitos benefícios que a auto-estima não me deu.

Vou começar por definir o que significa auto-estima. Auto-estima é uma avaliação global do que valemos, um julgamento: Serei uma boa pessoa ou serei uma má pessoa? E por muitos anos, psicólogos realmente viram a auto-estima como o derradeiro marco da saúde mental. Há uma razão para isso. Há muitas pesquisas que demonstram que se tiveres uma baixa auto-estima, se te odiares, vais ficar depressivo, ansioso, podes ter todo o tipo de problemas psicológicos, e se se tornar pior podes até considerar o suicídio. Contudo, a alta auto estima também pode ser problemática. O problema não é se a tens mas sim como a conseguiste.

Na cultura americana, para ter uma auto-estima alta, tens que te sentir especial e acima da média. Se eu disser a alguém que trata bem do seu corpo – isso é avaliar acima da média. Se me dissessem que toda esta conversa é acima da média – eu ficaria derretida claro.

Não está certo ser acima da média? É considerado um insulto ser acima da média? Mas qual é o problema aqui? E se todos nós podemos estar acima da média, ao mesmo tempo? Será que as palavras impossibilidade lógica entram na mente? O que acontece se todos nós temos que nos sentir acima da média?

Conforme começamos estes pequenos jogos, de repente encontramos caminhos para nos elevar para cima e deitar abaixo os outros, para que nos possamos sentir melhor do que eles. Existem mesmo pessoas que levam isto a um extremo. Podem ou não saber mas existe uma epidemia de narcisismo nesta cultura. Temos seguido os níveis de narcisismo das graduações universitárias dos últimos 25 anos, e estão nos níveis mais altos que alguma vez há memória. Muitos psicólogos acreditam que se deve aos movimentos pela auto-estima na escola. E há muita dinâmica social desagradável que pode resultar da necessidade de se sentir melhor do que outros para nos sentirmos bem com nós próprios.

Também temos uma epidemia de bulling na cultura nas nossas escolas. Porquê que as crianças fazem bulling? Poquê que as crianças acham que têm que exercer bulling? Para sentir que são mais fortes e mais poderosos do que os miúdos com quem estão a implicar? Ou porquê que as pessoas são prejudicadas? Porque sentimos que o nosso grupo religioso, ou étnico, ou partido politico é melhor do que o outro grupo? Em parte é para realçar a sua própria auto-estima.

Outro problema da auto-estima é que é contingente no sucesso. Só nos sentimos bem connosco quando somos bem-sucedidos nos domínios que são importantes para nós. Mas o que acontece quando falhamos? O que acontece, quando não encontramos os nossos patamares ideais?

Sentimo-nos mal com nós mesmos. Para as mulheres isto é especialmente difícil porque o que tu pensas que a pesquisa mostra pelo mundo, o domínio número um para o qual as mulheres investem na sua auto-estima? A percepção do quanto somos atraentes. E os níveis para as mulheres estão muito altos. Como nos podemos sentir acima da média na nossa aparência? Se olharmos para todas essas supermodelos.

Até mesmo as supermodelos sentem insegurança quando comparadas com outras supermodelos. É muito interessante se olharmos para este desenvolvimento.

Por volta do 3º ciclo, rapazes e raparigas, ambos pensam que são muito atraentes. E sentem níveis razoavelmente altos de auto-estima. Depois, os rapazes por volta do 6º ano, sentem-se bonitos e porreiros. No final da escola, sentem-se bem com a sua aparência. Mas por outro lado, as raparigas, logo após o 3º ciclo, mudam a percepção que têm de si próprias, em relação à sua aparência e consequentemente a sua auto-estima, leva uma reviravolta. Começa muito cedo.

Como sair deste emaranhado? Da constante necessidade de se sentirem melhores do que os outros, para que nos possamos sentir bem com nós próprios? É aqui que entra a auto compaixão.

Auto compaixão não é uma forma de nos julgarmos positivamente. Auto compaixão é uma forma de relativizar suavemente sobre ti próprio. Aceitando-nos como somos, com todos os defeitos que temos.

Defino auto estima, na minha pesquisa como tendo 3 componentes. O primeiro que devem achar bastante óbvio. Devemos tratar-nos com carinho em vez de criticar. Tratar-nos como a um bom amigo. Com encorajamento, compreensão, empatia, paciência, gentileza. Se parares para reparar como tratas a ti próprio, principalmente num dia mau, quando as coisas não estão a correr bem, és mais severo e cruel contigo em relação à linguagem que usas. Dizemos coisas a nós próprios que nunca diríamos a alguém que amamos. Dizemos coisas a nós próprios que provavelmente não dizemos, a alguém de quem não gostamos. Somos muitas vezes o nosso pior inimigo. Com auto compaixão, revertemos esse padrão e começamos a tratar nós próprios como tratamos um bom amigo.

O segundo componente de auto compaixão é a humanidade comum. Quando a auto estima pergunta: Em que sou diferente dos outros? A auto estima responde: Em que sou igual aos outros? E uma das formas em que somos iguais aos outros – O que significa ser humano? Humano significa ser imperfeito. Todos nós por todo o mundo somos imperfeitos como pessoas e as nossas vidas são imperfeitas. Isto é compartilhar experiência humana.

Geralmente o que acontece, irracionalmente, quando notamos algo em nós próprios – não atingimos o nosso objectivo ou estamos a lutar na vida – sentimos como se “Alguma coisa está errada aqui! Isto não é normal! Não devia ser desta forma! Eu não devia falhar para atingir os meus objectivos.” E é esse sentimento de anormalidade, que nos distingue dos outros, que nos afeta psicologicamente. Fazemos com que se torne bem pior, sentindo-nos isolados no nosso sofrimento e imperfeição, quando de facto é precisamente o que nos conecta com as outras pessoas.

O terceiro componente sobre auto estima é o mindfulness ou atenção plena. Mindfulness significa estar no presente momento. E precisamos de conseguir nos voltarmos, apercebermo-nos, validarmos o facto de que estamos a sofrer, para que assim nos consigamos dar a nós próprios a compaixão. Geralmente não estamos conscientes do nosso sofrimento, principalmente quando esse sofrimento advém da nossa cruel auto critica. Ficamos tão perdidos na nossa auto critica, tão identificados com essa nossa vertente, que nos erguemos e dizemos: “Estás errado! Devias ter feito melhor!” E nem reparamos na terrível dor que provocamos a nós próprios. E se não notamos o que estamos a fazer a nós próprios com essa severa autocritica, não conseguimos dar a nós próprios a compaixão que precisamos.

Devem estar a questionar: “Porque fazemos isso?” Autocritica? Sabemos que é doloroso. Então porque o fazemos? Descobrimos através de pesquisas que existem variadas razões para sermos autocríticos, mas a principal razão é porque acreditamos que precisamos de ser autocríticos para ficarmos motivados. Que se formos gentis connosco será indulgência e preguiça. Então a questão é: É verdade?

A pesquisa demonstrou exactamente o oposto, a autocritica repele a motivação. E aqui está a razão – quando nos criticamos, estamos a desencadear em nós próprios um sistema de defesa contra a ameaça, o cérebro reptiliano. Este sistema envolve-nos para que se houver alguma ameaça contra a nossa mente, libertamos adrenalina e cortisol e preparamo-nos para dar luta como resposta. E o sistema evoluiu para ameaças ao nosso corpo.

No mundo moderno, a ameaça não é tipicamente contra o nosso eu real mas contra o nosso autoconceito. Quando temos um pensamento em relação a nós do qual não gostamos, isso é uma imperfeição, sentimo-nos ameaçados e por isso atacamos o problema, ou seja, atacamo-nos a nós próprios. E com a auto critica, é um golpe duplo porque somos o atacante e o atacado. Por isso a auto critica liberta muito cortisol. Se continuamos a auto criticarmo-nos, temos constantes níveis altos de stresse. E, eventualmente o corpo para se proteger, vai auto destruír-se. E, aparecem as depressões que como sabemos não é propriamente a melhor motivação para a mente.

Felizmente, não somos apenas répteis, também somos mamíferos

Existe mais uma forma de nos sentirmos seguros. O sistema de cuidado, próprio do mamífero. O especial dos mamífero é que nascem muito imaturos, o que significa que o sistema envolve que a cria vai querer ficar perto da mãe para se sentir segura. Isto significa que os nossos corpos estão programados para responder ao caloroso, ao suave toque e vocalizações ternurentas. Então damos compaixão a nós próprios. Esta pesquisa demonstra que reduz o nosso nível de cortisol, libertando oxitocina e opiáceos que são as hormonas de prazer. Quando nos sentimos seguros e confortados, estamos no estado mental ideal para fazermos o melhor.

É bastante fácil de ver. Quando pensamos sobre a melhor motivação para os nossos filhos, diremos que existe um pai cujo filho chega da escola com uma má nota a matemática. Este pai tem duas formas para o tentar motivar. A primeira é com critica severa. O filho chega e mostra a má nota ao pai e o pai diz: “Que vergonhoso. És um falhado. Nunca valerás nada.” Não será exactamente esta a linguagem que usamos contra nós próprios? O que irá acontecer a este filho? Vai esforçar-se mais? Sim por um tempo, mas eventualmente perderá a fé em si próprio. Ficará deprimido e com medo de falhar e provavelmente desistir da matemática. Porque as consequências de falhar novamente são terríveis demais.

Mas, e se pelo contrário, o pai assume uma abordagem compassiva: “Oh, deves estar triste. Lamento. Vem cá dar-me um abraço. Isso acontece a qualquer um. Mas eu sei que tu queres subir as tuas notas de matemática porque queres ir para a faculdade.” E aqui a compaixão diz: “O que posso fazer para ajudar?” E quanto mais encorajador e amoroso o pai for, melhor vai ficar o filho emocionalmente para dar o seu melhor.

Felizmente, estudos e pesquisas asseguram o que acabei de dizer.

Auto compaixão está fortemente relacionada com o bem-estar mental. Está fortemente relacionada com menos depressão, menos ansiedade, menos stresse, menos perfeccionismo, com estados positivos, como a felicidade, com a satisfação pela vida.

Fizemos também alguma pesquisa comparando directamente auto estima e auto compaixão. E o que concluímos e o que podemos dizer é que auto compaixão oferece os benefícios da auto estima mas sem armadilhas.

Ou seja, está associada a uma saúde mental poderosa mas não ao narcisismo e à constante comparação social, ou à agressiva ego-defesa.

Quando a auto estima falha, a auto compaixão aparece para ajudar e dar um senso de seres valioso.

O grande desafio que enfrentei na vida, até o momento, foi quando o meu filho foi diagnosticado com autismo. Felizmente quando foi diagnosticado, já eu tinha uma longa prática de auto compaixão, Por isso, quando recebi a notícia, senti uma enorme tristeza, alguma vergonha. Foi difícil de aceitar e admitir. Mas como posso sentir tristeza por uma criança que amo mais do que qualquer coisa no mundo? Eu sabia que tinha de aceitar o quanto difícil estava a ser, para que quanto mais facilmente pudesse abraçar a minha dor, mais facilmente conseguia ultrapassar. E aceitar e amar o meu filho conforme ele é.

Existem pessoas que acham que auto compaixão é auto indulgência ou egoísmo. Mas não é, porque quanto mais conseguirmos manter o coração aberto para nós próprios, mais disponíveis estamos para ajudar as outras pessoas.

Convido-vos a tentar a compaixão por vós próprios. Principalmente as mulheres, vós sabeis como fazer isso. Sabeis como ser uma boa amiga. Sabes como confortar uma pessoa que precisa.

Lembra-te apenas de ser uma boa amiga para ti própria. É mais fácil do que parece e pode mesmo mudar a tua vida!

 

Vivemos sob uma cadeia de pensamentos que selecciona e isola um único aspeto da realidade.

“Um dia, quando caminhavam por uma região montanhosa, Gautama Buda, sob o sol do meio-dia, disse ao seu discípulo Ananda:

- Estou com sede, Ananda. Quando atravessamos as montanhas, passamos por um ribeiro. Podes voltar e trazer-me um pouco de água?

Ananda voltou pelo caminho e chegou até ao ribeiro. Porém ao chegar, notou que algumas carroças tinham acabado de o atravessar, sujando toda a água. As folhas mortas que estavam no fundo, flutuavam agora sobre a água deixando-a sem condições para beber e assim não poderia ser dada ao Buda.

Decidiu voltar e contar-lhe. Além do mais, sabia que algumas milhas atrás, onde haviam parado, corria um grande rio de águas cristalinas.

Buda que era muito rígido, disse-lhe:

- Volta novamente, pois lembro-me que quando passamos aquela água é pura e cristalina.

Ananda protestou:

- Entenda que, quando chegamos aqui algumas carroças passaram pelo rio e deixaram-no insalubre.

-Eu sei. – Disse o Buda – Mas senta-te na margem e espera o tempo que precisares. Vai lá e senta-te. Não mexas com a corrente senão vai se sujar novamente. Espersa simplesmente. Observa e não digas nada. Essas folhas mortas vão desaparecer. O barro assentará. E então enches a barrilha e voltas.

Ananda foi ao ribeiro novamente porque não podia desobedecer ao Buda. E lá sentou-se á espera. Ao esperar viu que as folhas e o barro estavam a assentar, deixando a água clara e pura como deve ser.

Ao voltar entendeu o que o Buda tentava dizer.

- Ananda não mexas no rio. Não sigas a corrente da tua mente. Espera na margem e observa. A verdadeira natureza da tua mente é esta clareza cristalina, suja por pensamentos e emoções passageiras.”

Em conversa com um grande biólogo molecular que também é monge budista nos últimos 40 anos. Refiro-me a Matthieu Ricard.

Matthieu Ricard é uma referência na meditação, na busca de novos assuntos, que completem as nossas ferramentas de questionamento das emoções. E nesta busca, acima de tudo podemos abordar a compaixão. E na questão das emoções, temos seguramente pecado, com o lado mais competitivo e egoísta do ser humano.

Segundo Matthieu Ricard, a felicidade não é uma sucessão interminável de prazeres que terminam por exaustão, mas sim uma forma de ser.

Se assim fosse os nossos filhos não deviam aprender na escola, a serem felizes e também bons? Desta forma o que dizer aos pais de hoje em dia?

Para que a compaixão floresça a boa índole que todos os seres humanos carregam, a ciência está a descobrir os benefícios da meditação.

Aprender a meditar pode ajudar-nos a conviver com uma mente mais clara e mais sábia na hora de lidar com as emoções negativas e estimular as positivas.

“Existem muitas coisas novas em muitos campos diferentes. Acredito que a neurociência contemplativa está a pleno vapor, o que é muito inspirador participar desta era de descobrimentos magníficos.

De acordo com a perspectiva budista, a ideia é contribuir com algo para a sociedade. Se pudermos ajudar as pessoas a encontrarem mais equilíbrio emocional e tornar as suas vidas mais compassivas, e forem mais felizes e mais altruístas, será maravilhoso.

Tentamos estudar vários aspectos do amor altruísta. A empatia, a compaixão por um objeto sem objecto, de forma muito detalhada. Relacionando-os com os fenómenos cerebrais, queremos saber como passar da benevolência para a empatia. É o desejo de que os outros deixem de sofrer. Buscar um remédio para o sofrimento e sua causa. Qual o processo? Como funciona? Como se relaciona com o cérebro? Tem que se sentir o sofrimento alheio para sentir compaixão, ou não? Um amor altruísta será suficiente?

Tudo isto pode ser estudado sob a perspectiva da meditação e neurociência. Unindo ambas, será maravilhoso!” Mathieu Ricard

Há alguns anos, a neurociência surpreendeu o mundo ao declarar que Mathieu Ricard era o homem mais feliz do mundo. É francês, Doutor em Bioquímica, trabalhou no Instituto Pasteur com Jacques Monod que ganhou o prémio nobel, e logo depois se converteu para monge budista.

Ricard e outros meditadores experientes foram submetidos a testes exaustivos, com scanners cerebrais, para medir as consequências de um tipo de meditação concreta: Onde se dá um estado puro de amor e compaixão, focada em absolutamente nada em particular.

Os resultados mostraram níveis desconhecidos até então, de emoção positiva no córtex pré-frontal esquerdo do cérebro.

Dentre as atividades do lado direito, a área relacionada à depressão diminuía, como se a compaixão tivesse sido um bom antidoto contra a depressão. E também diminuía a amidala, relacionada ao medo e à raiva.

Outros estudos parecidos, mostraram que o grau de atenção destes meditadores é muito maior que a do resto da população, e podem mantê-la por muito mais tempo.

O que acontece com os meditadores iniciantes? Há alguma vantagem para eles?

Para o comprovar, um grupo de funcionários de uma empresa, realizou 30 minutos diários de meditação, durante 3 meses.

No final do estudo, os funcionários relataram, queda nos níveis de ansiedade. E era notável que as atividades do córtex pré-frontal esquerdo aumentavam. Isto é, as suas emoções positivas.

Não desesperem. Não é necessário ser um monge ou ir para o Himalaias, Um pouco de disciplina é suficiente, para alcançar determinado controlo mental, e melhorar o nível de felicidade na tua vida.

“Para a grande parte da ciência ocidental, o ser humano é intrinsecamente mau. Isto é adoração ao egoísmo, o que parece-me muito estranho, porque não se encaixa nos dados científicos. Sendo que se trata de uma espécie de distorção, a principio. Podemos ver na economia, em alguns aspetos da evolução e também em alguns aspetos da psicologia,

Há toda uma escola filosófica chamada “egoísmo psicológico”, incluindo algo denominado egoísmo ético que supõe que somos egoístas e que isto está bem, que devemos ser assim.

Porque nos preocupar? Há que sobreviver. E por que nos sentimos culpados se não ajudarmos os outros? Parece a receita perfeita para se chegar à catástrofe completa. Isso é completamente errado porque pressupõe que qualquer conduta ou motivação que pareça altruísta tem sempre por trás uma motivação egoísta. E se converte numa espécie de dogma. Além disso, praticamente tudo o que vemos, está motivado pelo “eu”. Se tens a intenção de ser bom é à custa de algo. És bom demais para o teu estado mental. Esta negação do lado bom da natureza humana me parece terrível. Qualquer pessoa com senso comum vê que os dados sociológicos demonstram que o verdadeiro altruísmo existe. É claro que às vezes também somos egoístas. E que existem pessoas mais egoístas do que altruístas. Mas dizer que o altruísmo autêntico não existe é absurdo. Alguns dados por exemplo, as pessoas que resgataram famílias na época da repressão, como os judeus na época do nazismo. Ou as famílias que tentaram protege-los e que os esconderam em suas casas. Não eram seus parentes, não eram da mesma religião ou linhagem genética. Eram ilustres desconhecidos e não poderiam esperar nada em troca. Assumiram riscos enormes para eles e para as suas famílias. Como chamá-los de egoístas? Eles diriam: É claro que temos de fazer isto! Somos parte da mesma família humana, mas pode-se encontrar uma motivação egoísta nisto? É um absurdo. Por isso, é necessário explicar a realidade.

Não existe um potencial para o bem que esteja sempre presente. É como se um pedacinho de ouro caísse no barro e ficasse lá por muito tempo. Continuaria a ser ouro. Podia ser polido e limpo novamente. Se fosse um calcário, podia ser polido durante 100 anos que nunca se transformaria em ouro. Isto não é ingenuidade. Não é outro tipo de dogma. Baseia-se na compreensão de como a consciência humana funciona. No budismo chamamos o aspeto luminoso da mente. É só uma metáfora. A mente não brilha no escuro. Mas porque falamos de luz? É como uma tocha onde se focalizam várias coisas. A luz não é modificada pelo que ilumina. Se iluminas uma lata de lixo, ela não se torna mais limpa. Se iluminas o ouro, ele não se torna mais caro. A natureza básica da consciência permite muitos conteúdos diferentes como o ódio, o amor, ciúme, alegria… tudo. Mas a consciência é a mesma. São conceitos mentais que se dão por muitas causas e condições. Mas a natureza central da consciência não está determinada. Ela tem potencial para ir para qualquer direcção. A ideia é que, de um jeito experimental, se olharmos para a mente, a consciência básica está por trás de cada pensamento, emoção. Sempre está presente e não está condicionada. Somos conscientes e isso permite a transformação da mente.”

O nosso estado mental, a forma como interpretamos o que acontece, é o que realmente determina o nosso grau de felicidade e bem estar interno.

Pensamos que este tumulto de pensamentos e emoções que nos perturba diariamente, nos são próprios. Que fazem parte da natureza da mente. Cada imagem é um estado mental que sucede intercaladamente de forma ininiterrupta. Achamos que esta sucessão de imagens bonitas, dolorosas ou diabólicas, são parte da nossa natureza intrínseca. Porém, para os budistas, estas imagens, emoções  e pensamentos são projectados na nossa tela cerebral, mas não te pertencem, não são parte de ti. Os meditadores são capazes de perceber e focar a sua atenção no que há atrás do fluxo contínuo do pensamento. Ou seja, a claridade da tela. A isto dá-se o nome de aspeto luminoso da mente ou consciência pura, onde existe a capacidade de conhecer. Subestimamos a capacidade que temos de transformar a nossa mente. Mas, se focarmos a nossa atenção nesta claridade aumentaremos o nosso estado de equanimidade ou imparcialidade interna que evita que nossos pensamentos e emoções nos arrastem. Se conseguirmos modificar a nossa mente, podemos modificar o nosso mundo interior. Uma tarefa mais fácil e ao nosso alcance do que modificar as circunstâncias externas do mundo em que vivemos.

“Acredito que seja importante conseguir a liberdade interior deste processo mental do ódio, ciúme, arrogância e desejo obsessivo, com o altruísmo e a compaixão que surgem desta liberdade. É disso que a humanidade precisa, acima de tudo. Precisamos de uma sociedade mais compassiva. Neste momento somos interdependentes, e se não cooperarmos, estaremos todos a perder.

Sociedade compassiva é uma sociedade onde temos consideração pelos outros. Onde nos preocupamos com o próximo.

Todos os escândalos e crises da economia são produto da ganância exclusiva, de pessoas que realmente não se importam com a miséria.

Porque nem todos temos qualidade de vida? Porque existe um espaço tão grande entre norte e sul? Porque existe toda esta pobreza no mundo? Poderíamos solucioná-la facilmente com os recursos que temos.

O altruísmo é a única característica que poderia abordar o presente a médio e longo prazo.

É necessário haver grandes reformas na educação. Não tenho filhos mas participo em 40 projetos humanitários com 15 mil crianças para quem construímos escolas e por isso tenho alguma experiência em lidar com crianças. E o que esperamos quando educamos as crianças? Transformá-los em seres humanos bons? Pessoas que sejam felizes na vida e não cometam suicídio? Bastará quando desenvolvermos suas inteligências e enchermos as suas cabeças de informação sem desenvolvermos nenhuma qualidade humana?

Queremos pessoas boas e equilibradas. Mas a educação parece estar interessada em tudo, menos isso. Portanto, isto é algo que está a faltar.

Estamos apenas a cultivar ferramentas. A inteligência é uma ferramenta. A informação é uma ferramenta. E uma ferramenta pode ser usada de modo construtivo, ou destrutivo ou pode-se não aproveitá-la. Podes usar um martelo para construir uma casa, destruí-la ou podes desperdiçar o martelo deixando-o na gaveta e nunca usá-lo. Uma ferramenta por si só, sem nenhuma intenção, atitude ou valor não é absolutamente nada.”

Talvez a compaixão seja a emoção que nos torna mais humanos.

Não podemos experimentar a compaixão pelos outros, sendo seres isolados. A nossa individualidade, de alguma forma suaviza-se, ao entramos em contacto com a dor e a necessidade alheia, promovendo no nosso interior, o desejo de ajudá-los.

A filosofia budista considera que, a real natureza do Homem é compassiva, e parte do seu treino mental está direccionado para aumentar e partilhar a emoção.

Quanto mais observamos a dor alheia, com o passar do tempo, passa a ser uma compaixão mais sossegada mas igualmente profunda. Um ponto de vista, onde somos tradicionalmente reconhecidos, como pessoas especiais e distintas, do resto da natureza.

No começo dos tempos, a ideia de sobrevivência dos mais aptos foi levada ao extremo por alguns filósofos do século XIX, como Herbert  Spencer que declarou: Os fracos e estúpidos da raça devem ser deixados a morrer, de modo que os fortes possam sobreviver e a raça humana em seu conjunto, progredir para se aperfeiçoar.

Finalmente, o senso comum voltou e ninguém mais duvida que o Homem possa se erguer e lutar pela sua sobrevivência. E que os comportamentos altruístas tenham espaço na sua natureza.

Graças aos avanços científicos, vivemos mais e em melhores condições, apesar de algumas complicações da ciência terem tido propósitos menos nobres.

O estudo das emoções positivas, como a compaixão, é muito recente e cada dia aumenta um pouco. Talvez seja a hora de virar a página e incorporar a compaixão. Não só como objecto de estudo e sim com a consciência de ciência que veio como um bem comum em todas as suas aplicações.

“Se quiseres cultivar o altruísmo, com a mente sempre distraída, não conseguirás cultivar nada. A mente dispersa-se aqui e ali. Mesmo que estejamos sentados, a nossa mente pode ser um macaco inquieto. Um macaco inquieto que pula de um lado para o outro. Os neurónios podem falar entre si. Precisamos de um pouco mais de calma, com mais claridade e estabilidade. Caso contrário não conseguiremos fazer nada.

É preciso de alguma forma usar objeto de concentração, para estabilizar a mente. Podes-te concentrar em qualquer coisa. Um objeto, uma flor, uma imagem mental. Mas algo bastante útil é concentrares-te na respiração. Porquê? Imagina que te concentras numa luz que pisca, cintilante. Podias estar a olhar para ela mas a tua mente continuava a perambular. Mas se te concentrares na tua respiração, é algo subtil que não podes ver. E se não te concentrares podes perdê-la. Assim torna-se fácil saber se estás distraído ou não.

Apenas com a respiração tens esta sensação. Quando respiras pelo nariz, tens uma ligeira sensação nos orifícios nasais. Trata-se de ficar sentado tranquilamente. Pensar em respirar pelo nariz e prestar atenção ao ar que sai e entra. Umas 21 vezes em 10 minutos. Fazer isto, permite que a tua mente se acalme. Muitas pessoas dirão: Eu não tenho jeito para isso! Em 3 minutos a minha mente está completamente distraída.” É normal, mas persiste na meditação porque a mente não está ainda treinada. Se não persistires, nunca aprenderás nada. Em vez de arrependimentos ou sentires-te culpado com ideias como “eu não sirvo para isto”, quando tiveres uma distração, não faças nada. Só tens que voltar à respiração. Se fizeres isso durante um tempo e repetires regularmente, verás que a mente está mais calma, mais limpa. E podes utilizar isso com mais flexibilidade, para cultivar o altruísmo, a compaixão ou o que quiseres”

Com ou sem meditação, vamos precisar de aprender aquelas matérias novas sobre as quais ninguém vos tinha falado antes. Os sistemas educativos, são absolutamente necessários, para termos uma visão um pouco mais correta, menos egoísta, mais compassiva do mundo e das relações humanas.

Da mesma forma que um desportista treina o seu corpo, devemos treinar a nossa mente para alcançar os nossos objetivos.

“Além de meditarmos sobre a compaixão, precisamos de praticá-la.” (Matthieu Ricard)

urgenciaTodos estamos habituados a que o nosso pensamento nos leve para o passado e para o futuro. Muito dificilmente o nosso pensamento deposita a sua atenção naquilo que é o momento presente. Verdade?

Quando o pensamento vai ao passado, o que trás do passado são culpas. Nossas e dos outros; ressentimentos. Algumas vergonhas, se calhar.

E em relação ao futuro, o que nos trás são expectativas. E medo. Muito medo de não cumprir e de não alcançar as expectativas. Verdade?

Então enquanto o nosso pensamento badala, como um pêndulo, entre o passado e o futuro, a nossa vida passa e nós não damos conta. Mas se compreendermos, hoje ou amanhã o que tivemos medo ontem, está tudo bem.

Então, mas o que acontece, é que eu ontem quando estava com medo de hoje, eu não estava a viver o ontem. Não passo a maioria do meu tempo concentrado e com a atenção depositada naquilo que é aquele momento especifico. E o que acontece é que aquele processo cognitivo que eu falava à pouco, as decisões e as perceções e as crenças, acabam por tomar conta de nós e acabam por acontecer de forma completamente inconsciente. Nós comportamo-nos como máquinas governadas por um piloto automático. Ficamos à deriva.

Deixamo-nos ficar à deriva com tanta facilidade. Daí que seja  urgente compreender que precisamos de viver cada momento como ele é. Sem reagir negativamente a ele. Sem nos apegarmos a ele. Todos os momentos da nossa vida estão de passagem. Eu não sei se vou dar uma triste novidade a alguém, mas um dia todos nós vamos morrer; não há um de nós aqui que se vá safar. Isto é uma experiência provisória. Isto não é definitivo. Então, não depositar a atenção no momento presente faz tanto sentido como ir ao cinema e ficar a mandar mensagens no telemóvel ou a ver vídeos no Youtube. Não faz sentido, pois não? Daí a urgência da meditação. Para reeducar a mente a estar no presente.

Através da meditação nós conseguimos reeducar o nosso cérebro. A boa noticia é que o nosso cérebro é um conjunto de músculos e os músculos podem ser treinados e podem mudar o comportamento. Está cada vez mais explicado pelas ciências e pelas neurociências de que há um fenómeno chamado neuroplasticidade que tem a ver com processos de moldagem do cérebro em função daquilo que nós pensamos e daquilo que nós metemos lá dentro e isto dá-nos só a nós a responsabilidade de decidir o que nós queremos viver. 

integridadeSurgem por vezes correntes anti-comercialização dos serviços de formação em meditação, apelidamos essa prática de "exploração".
 
A nossa proposta não é para que as pessoas paguem para meditar. É para que as pessoas paguem para aprender a meditar, contribuindo para a crescente profissionalização dos nossos serviços e para a crescente divulgação e sensibilização em que nos empenhamos para o tema.
 
Não se trata de uma mera exploração comercial. Trata-se antes de uma troca justa de valor por valor. Se não houvesse um sistema de trocas, que permitisse a justa retribuição pelo nosso trabalho, ficariamos rapidamente à mercê da bondade dos outros, ou muito provavelmente condenados à miséria. E nessa condição, pouca utilidade social teríamos; não poderiamos dispor sequer de amor próprio, quanto mais de o espalhar para os outros.
 
Esta estratégia permitiu que, durante este último ano, cerca de 400 pessoas estivessem presentes nos nossos eventos gratuitos. Mais de 800 inscreveram-se na nossa newsletter para saberem mais informações sobre o tema, porque lhe despertamos a atenção. Cerca de 1500 descarregaram o nosso ebook de meditação na nossa página. A esmagadora maioria, do distrito do Porto.
 
Acredito que estes números refletem o meu esforço em desmistificar a meditação e levar a todos esta fabulosa ferramenta de construção de liberdade e de desenvolvimento pessoal. É um esforço de sensibilização sem precedentes em Portugal que está a permitir a tantas pessoas despertar para a urgência da prática meditativa.
 
Mas quero mais. Quero muito mais! Quero disponibilizar estas ferramentas a todos os falantes da língua portuguesa. 600 milhões, espalhados por todo o mundo. Naturalmente que para benefício de tantos, terão que ser investidos recursos. Recursos que terão que ser reunidos.
 
Sobre a questão do "ego espiritual", esse termo está na moda, mas poucos refletem verdadeiramente sobre o sentido da expressão. Aliás, tanto a palavra "ego", como a palavra "espiritual" são conceitos vagos e amplamente discutíveis, quer sob o ponto de vista da ciência psicológica, quer sob o ponto de vista filosófico. 
 
Garanto apenas que o ego é uma necessidade e uma grande ferramenta de sobrevivência social, assegurando que temos tudo o que de material precisamos para sobreviver e para colocar em prática o nosso propósito de vida. E esta capacidade de refletir e de agir em função do nosso propósito de vida, que quanto a mim só se pode consubstanciar em deixar o planeta algo melhor do que o encontramos, é a verdadeira espiritualidade.
 
É na terra que estamos. Precisamos depositar os pés firmemente sobre ela. Não adianta procurar no longínquo o que está aqui e agora e que tantas vezes não damos conta e que ignoramos de todo. Não há nada de sobrenatural que influencie a nossa experiência de vida. Talvez haja leis naturais que não explicamos e não compreendemos. Mas o caminho de descoberta faz-se sempre de dentro para fora, o que quer dizer, do conhecido para o desconhecido. E há muito para (re)conhecer aqui. Agora. Este é o momento de experienciar a vida. De a saborear. E de fazer com que valha a pena. Para mim e para os outros.
 
A minha proposta de meditação não é nada de mistico nem de religioso. Não se trata de encontrar justificações fora desta vida, fora deste momento, fora deste contexto. Trata-se de encontrar as respostas já. No que existe. No que é palpável. Objectivo. Concreto. Ciêntifico. Comprovável. Com efeitos imediatos sobre a nossa vida e sobre a forma como a construimos e como a vivemos. E que não pode ser ignorado. A ignorância é um dos maiores venenos da mente humana. 
 
Emanuel Almeida
CEO da metta.pt

Neste espaço encontrará meditações guiadas que poderão ajudar a praticar meditação no conforto do seu próprio espaço.