As 4 etapas da meditaçãoA maioria das escolas de meditação, pelo menos aquelas que têm origem contemplativa, ou seja, que ensinam a depositar a atenção no momento presente, estruturam a prática meditativa em 4 fases:

1ª fase - relaxamento.

Trata-se de relaxar o corpo para poder conectar a mente com o corpo.

2ª fase - concentração.

No fundo é como se estivéssemos a preparar uma lâmina para fazer uma operação, para dissecar a nossa mente. Ensinar a nossa atenção a depositar-se sobre um único ponto. Evidentemente que a nossa atenção vai ser raptada pelos pensamentos. E está bem. Mas temos de aprender a recapturar a atenção e a depositá-la em cada momento. Então, normalmente ensinamos a meditação com a concentração na respiração, porque, mais uma vez ,a respiração é uma coisa que está sempre a acontecer, eu não me posso esquecer da respiração em casa. Então depositar a atenção na respiração porque é involuntária, está sempre a acontecer. Não se trata de condicionar a respiração. Trata-se de depositar a atenção sobre a respiração e sobre um ponto especifico da respiração. Com o tempo podemos escolher outros objectos da meditação, ou seja, outros objectos onde concentraremos a atenção.

3ª fase - atenção plena ou mindfulness.

Uma verdadeira revolução! Porque a atenção plena é quando esta concentração que depositamos na nossa respiração inicialmente se consegue estender também a sensações que estão no meu corpo, no nosso corpo, e se consegue depois desmultiplicar também pelos sentimentos e pelos pensamentos que eu tenho. E pelas sensações do meu corpo, quer ao nível da audição, da visão, do olfato. Ter consciência de o que é que se passa no meu corpo e no que está à volta dele. É construir esta experiência de uma forma permanente. Conseguir estar realmente onde estamos. Permanentemente conectados com cada momento. Pode parecer complicado, mas treina-se. É só trabalho!

4ª fase - equanimidade

A equanimidade é um estado de não reação da mente. Um estado de absoluta compreensão que se vai constrindo passo a passo.

Para atingir este estado, é preciso compreender que na realidade nós reagimos é à dor e ao prazer. Aquilo que nos motiva realmente a fazer alguma coisa é evitar a dor e buscar o prazer.  E ganhamos apego ao prazer e aversão à dor.

E além disso, é preciso compreender a vacuidade. E a vacuidade significa que as coisas não têm um valor por si próprias. As coisas só adquirem o valor que nós próprios lhe atribuímos.

E depois um outro princípio, que também temos de aprender e interiorizar, é o principio da impermanência. Nenhuma experiência da vida é para durar muito. Estamos todos de passagem. Não há nada na Natureza que não esteja em evolução constante, que não esteja em permanente mudança. Sim? E então quando compreendemos isto, também podemos abrir caminho para compreender a forma como nós nos apegamos às coisas. E o apego é nada mais, nada menos do que uma tentativa de lutar contra a natureza da impermanência. 

Quando sinto prazer numa determinada sensação positiva ou na situação que a causa, eu quero que aquela situação se mantenha. Mas a realidade é que todas as situações estão em mudança. Portanto aquela situação, como todas as outras, vai passar. E virão outras sensações.

E há outra coisa que para mim também muito importante, que é aquilo a que temos aversão, aquilo que tentamos evitar. No fundo é a dor e o prazer - o apego e a aversão - que causam as nossas reações. E o que nos faz sofrer não são as circunstâncias em que vivemos. O que nos faz sofrer de facto é a nossa reação a estas circunstâncias. 

Compreendido isto e compreendido pela vivência, compreendido pelo estudo e observação destes processos em cada um de nós, somos capazes de adquirir uma nova perceção da realidade, muito diferente da perceção da realidade que a maioria de nós está habituado a ter. É muito perto do nirvana, também lhe chamam samadhi. É uma nova perceção da realidade. E quanto a mim este é o verdadeiro despertar.

 

Emanuel Almeida