Matthieu Ricard é um monge budista, PhD em biologia molecular e escritor.

No seu mais recente livro "A revolução do altruísmo" (publicado pela editora Palas Athena), ele discute a existência de uma tendência natural do ser humano a ajudar o próximo.

O meu objectivo, ao escrever este livro sobre o altruísmo bastante focado, era em primeiro lugar mostrar que o altruísmo genuíno realmente existe, e em segundo lugar mostrar que podemos cultivá-lo, ampliá-lo.

E porquê mostrar que o altruísmo genuíno existe? Pode parecer muito óbvio pois muitos de nós, sabemos no fundo do coração que em muitas ocasiões, a nossa intenção, o nosso objectivo, é puramente levar bem-estar e alegria a alguém, ou aliviar algum sofrimento sem quaisquer intenções ou interesse próprio.

Mas, ainda assim, descobri que há muitos filósofos, pensadores, psicólogos, economista, que acreditam firmemente que não há nada além do egoísmo entre os seres humanos, Que não importa a situação, se observares cuidadosamente o comportamento, vais encontrar uma motivação egoísta. Mas também surpreendentemente, não há qualquer indício de evidência científica que possa dar suporte a essa afirmação. Pelo contrário, todo o trabalho de psicólogos como Daniel Batson e muitos outros que mostraram que, é claro que o egoísmo existe, não duvidamos disso, mas junto com o egoísmo existe também a intenção genuína de ajudar os outros a que chamamos de preocupação empática pela situação dos outros, está lá e está presente em muitas ocasiões para a maioria de nós.

Depois, o próximo ponto é: podemos ampliar isso? Bem, nós temos esse potencial, mas é como qualquer outro potencial. Nós não nascemos a saber ler, escrever ou jogar ténis ou tocar piano. Temos que treinar para aprender. Então o altruísmo, a bondade amorosa, a compaixão, a benevolência, são qualidades que fazem parte do nosso potencial, mas esse potencial precisa de crescer e isso vem com o treino.

As ciências contemplativas como o budismo e outras, ensinam como cultivar essas qualidades. E depois, os meios de investigação da era moderna como a neurociência, mostraram claramente, com o que chamamos de neuroplasticidade, que se estás a treinar qualquer coisa, o cérebro muda estruturalmente e funcionalmente. E foi demonstrado agora que, os cérebros das pessoas que treinam a meditação da bondade amorosa, estão a mudar. Os seus sistemas imunológicos estão a mudar, e agora está a ser mostrado que a expressão dos teus genes pode mudar.

Então podemos realmente tornamo-nos pessoas diferentes.

Esses dois pontos possibilitam uma mudança individual, mas também temos que ir buscar uma mudança na sociedade, e isso vem por meio da evolução da cultura.

Quando uma massa crítica de pessoas genuinamente altruístas se une e coopera, lentamente pode mudar a opinião pública. A cultura muda para que haja uma sociedade mais cooperativa. Acho que estamos nesse caminho porque é uma necessidade, uma obrigação. É uma questão de sobrevivência que nos tornemos mais cooperativos do que competitivos, devido às condições deste mudo superpopuloso.

Seria tão melhor se cooperássemos! Vê por exemplo a saúde humana com a Organização Mundial da Saúde, que não existe para o meio ambiente. Então nós temos realmente  que nos unir neste barco que é o nosso planeta, com todas as casualidades que existem, seres humanos, 1.3 milhões de espécies de animais, temos de trabalhar juntos.”

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