Vivemos sob uma cadeia de pensamentos que selecciona e isola um único aspeto da realidade.

“Um dia, quando caminhavam por uma região montanhosa, Gautama Buda, sob o sol do meio-dia, disse ao seu discípulo Ananda:

- Estou com sede, Ananda. Quando atravessamos as montanhas, passamos por um ribeiro. Podes voltar e trazer-me um pouco de água?

Ananda voltou pelo caminho e chegou até ao ribeiro. Porém ao chegar, notou que algumas carroças tinham acabado de o atravessar, sujando toda a água. As folhas mortas que estavam no fundo, flutuavam agora sobre a água deixando-a sem condições para beber e assim não poderia ser dada ao Buda.

Decidiu voltar e contar-lhe. Além do mais, sabia que algumas milhas atrás, onde haviam parado, corria um grande rio de águas cristalinas.

Buda que era muito rígido, disse-lhe:

- Volta novamente, pois lembro-me que quando passamos aquela água é pura e cristalina.

Ananda protestou:

- Entenda que, quando chegamos aqui algumas carroças passaram pelo rio e deixaram-no insalubre.

-Eu sei. – Disse o Buda – Mas senta-te na margem e espera o tempo que precisares. Vai lá e senta-te. Não mexas com a corrente senão vai se sujar novamente. Espersa simplesmente. Observa e não digas nada. Essas folhas mortas vão desaparecer. O barro assentará. E então enches a barrilha e voltas.

Ananda foi ao ribeiro novamente porque não podia desobedecer ao Buda. E lá sentou-se á espera. Ao esperar viu que as folhas e o barro estavam a assentar, deixando a água clara e pura como deve ser.

Ao voltar entendeu o que o Buda tentava dizer.

- Ananda não mexas no rio. Não sigas a corrente da tua mente. Espera na margem e observa. A verdadeira natureza da tua mente é esta clareza cristalina, suja por pensamentos e emoções passageiras.”

Em conversa com um grande biólogo molecular que também é monge budista nos últimos 40 anos. Refiro-me a Matthieu Ricard.

Matthieu Ricard é uma referência na meditação, na busca de novos assuntos, que completem as nossas ferramentas de questionamento das emoções. E nesta busca, acima de tudo podemos abordar a compaixão. E na questão das emoções, temos seguramente pecado, com o lado mais competitivo e egoísta do ser humano.

Segundo Matthieu Ricard, a felicidade não é uma sucessão interminável de prazeres que terminam por exaustão, mas sim uma forma de ser.

Se assim fosse os nossos filhos não deviam aprender na escola, a serem felizes e também bons? Desta forma o que dizer aos pais de hoje em dia?

Para que a compaixão floresça a boa índole que todos os seres humanos carregam, a ciência está a descobrir os benefícios da meditação.

Aprender a meditar pode ajudar-nos a conviver com uma mente mais clara e mais sábia na hora de lidar com as emoções negativas e estimular as positivas.

“Existem muitas coisas novas em muitos campos diferentes. Acredito que a neurociência contemplativa está a pleno vapor, o que é muito inspirador participar desta era de descobrimentos magníficos.

De acordo com a perspectiva budista, a ideia é contribuir com algo para a sociedade. Se pudermos ajudar as pessoas a encontrarem mais equilíbrio emocional e tornar as suas vidas mais compassivas, e forem mais felizes e mais altruístas, será maravilhoso.

Tentamos estudar vários aspectos do amor altruísta. A empatia, a compaixão por um objeto sem objecto, de forma muito detalhada. Relacionando-os com os fenómenos cerebrais, queremos saber como passar da benevolência para a empatia. É o desejo de que os outros deixem de sofrer. Buscar um remédio para o sofrimento e sua causa. Qual o processo? Como funciona? Como se relaciona com o cérebro? Tem que se sentir o sofrimento alheio para sentir compaixão, ou não? Um amor altruísta será suficiente?

Tudo isto pode ser estudado sob a perspectiva da meditação e neurociência. Unindo ambas, será maravilhoso!” Mathieu Ricard

Há alguns anos, a neurociência surpreendeu o mundo ao declarar que Mathieu Ricard era o homem mais feliz do mundo. É francês, Doutor em Bioquímica, trabalhou no Instituto Pasteur com Jacques Monod que ganhou o prémio nobel, e logo depois se converteu para monge budista.

Ricard e outros meditadores experientes foram submetidos a testes exaustivos, com scanners cerebrais, para medir as consequências de um tipo de meditação concreta: Onde se dá um estado puro de amor e compaixão, focada em absolutamente nada em particular.

Os resultados mostraram níveis desconhecidos até então, de emoção positiva no córtex pré-frontal esquerdo do cérebro.

Dentre as atividades do lado direito, a área relacionada à depressão diminuía, como se a compaixão tivesse sido um bom antidoto contra a depressão. E também diminuía a amidala, relacionada ao medo e à raiva.

Outros estudos parecidos, mostraram que o grau de atenção destes meditadores é muito maior que a do resto da população, e podem mantê-la por muito mais tempo.

O que acontece com os meditadores iniciantes? Há alguma vantagem para eles?

Para o comprovar, um grupo de funcionários de uma empresa, realizou 30 minutos diários de meditação, durante 3 meses.

No final do estudo, os funcionários relataram, queda nos níveis de ansiedade. E era notável que as atividades do córtex pré-frontal esquerdo aumentavam. Isto é, as suas emoções positivas.

Não desesperem. Não é necessário ser um monge ou ir para o Himalaias, Um pouco de disciplina é suficiente, para alcançar determinado controlo mental, e melhorar o nível de felicidade na tua vida.

“Para a grande parte da ciência ocidental, o ser humano é intrinsecamente mau. Isto é adoração ao egoísmo, o que parece-me muito estranho, porque não se encaixa nos dados científicos. Sendo que se trata de uma espécie de distorção, a principio. Podemos ver na economia, em alguns aspetos da evolução e também em alguns aspetos da psicologia,

Há toda uma escola filosófica chamada “egoísmo psicológico”, incluindo algo denominado egoísmo ético que supõe que somos egoístas e que isto está bem, que devemos ser assim.

Porque nos preocupar? Há que sobreviver. E por que nos sentimos culpados se não ajudarmos os outros? Parece a receita perfeita para se chegar à catástrofe completa. Isso é completamente errado porque pressupõe que qualquer conduta ou motivação que pareça altruísta tem sempre por trás uma motivação egoísta. E se converte numa espécie de dogma. Além disso, praticamente tudo o que vemos, está motivado pelo “eu”. Se tens a intenção de ser bom é à custa de algo. És bom demais para o teu estado mental. Esta negação do lado bom da natureza humana me parece terrível. Qualquer pessoa com senso comum vê que os dados sociológicos demonstram que o verdadeiro altruísmo existe. É claro que às vezes também somos egoístas. E que existem pessoas mais egoístas do que altruístas. Mas dizer que o altruísmo autêntico não existe é absurdo. Alguns dados por exemplo, as pessoas que resgataram famílias na época da repressão, como os judeus na época do nazismo. Ou as famílias que tentaram protege-los e que os esconderam em suas casas. Não eram seus parentes, não eram da mesma religião ou linhagem genética. Eram ilustres desconhecidos e não poderiam esperar nada em troca. Assumiram riscos enormes para eles e para as suas famílias. Como chamá-los de egoístas? Eles diriam: É claro que temos de fazer isto! Somos parte da mesma família humana, mas pode-se encontrar uma motivação egoísta nisto? É um absurdo. Por isso, é necessário explicar a realidade.

Não existe um potencial para o bem que esteja sempre presente. É como se um pedacinho de ouro caísse no barro e ficasse lá por muito tempo. Continuaria a ser ouro. Podia ser polido e limpo novamente. Se fosse um calcário, podia ser polido durante 100 anos que nunca se transformaria em ouro. Isto não é ingenuidade. Não é outro tipo de dogma. Baseia-se na compreensão de como a consciência humana funciona. No budismo chamamos o aspeto luminoso da mente. É só uma metáfora. A mente não brilha no escuro. Mas porque falamos de luz? É como uma tocha onde se focalizam várias coisas. A luz não é modificada pelo que ilumina. Se iluminas uma lata de lixo, ela não se torna mais limpa. Se iluminas o ouro, ele não se torna mais caro. A natureza básica da consciência permite muitos conteúdos diferentes como o ódio, o amor, ciúme, alegria… tudo. Mas a consciência é a mesma. São conceitos mentais que se dão por muitas causas e condições. Mas a natureza central da consciência não está determinada. Ela tem potencial para ir para qualquer direcção. A ideia é que, de um jeito experimental, se olharmos para a mente, a consciência básica está por trás de cada pensamento, emoção. Sempre está presente e não está condicionada. Somos conscientes e isso permite a transformação da mente.”

O nosso estado mental, a forma como interpretamos o que acontece, é o que realmente determina o nosso grau de felicidade e bem estar interno.

Pensamos que este tumulto de pensamentos e emoções que nos perturba diariamente, nos são próprios. Que fazem parte da natureza da mente. Cada imagem é um estado mental que sucede intercaladamente de forma ininiterrupta. Achamos que esta sucessão de imagens bonitas, dolorosas ou diabólicas, são parte da nossa natureza intrínseca. Porém, para os budistas, estas imagens, emoções  e pensamentos são projectados na nossa tela cerebral, mas não te pertencem, não são parte de ti. Os meditadores são capazes de perceber e focar a sua atenção no que há atrás do fluxo contínuo do pensamento. Ou seja, a claridade da tela. A isto dá-se o nome de aspeto luminoso da mente ou consciência pura, onde existe a capacidade de conhecer. Subestimamos a capacidade que temos de transformar a nossa mente. Mas, se focarmos a nossa atenção nesta claridade aumentaremos o nosso estado de equanimidade ou imparcialidade interna que evita que nossos pensamentos e emoções nos arrastem. Se conseguirmos modificar a nossa mente, podemos modificar o nosso mundo interior. Uma tarefa mais fácil e ao nosso alcance do que modificar as circunstâncias externas do mundo em que vivemos.

“Acredito que seja importante conseguir a liberdade interior deste processo mental do ódio, ciúme, arrogância e desejo obsessivo, com o altruísmo e a compaixão que surgem desta liberdade. É disso que a humanidade precisa, acima de tudo. Precisamos de uma sociedade mais compassiva. Neste momento somos interdependentes, e se não cooperarmos, estaremos todos a perder.

Sociedade compassiva é uma sociedade onde temos consideração pelos outros. Onde nos preocupamos com o próximo.

Todos os escândalos e crises da economia são produto da ganância exclusiva, de pessoas que realmente não se importam com a miséria.

Porque nem todos temos qualidade de vida? Porque existe um espaço tão grande entre norte e sul? Porque existe toda esta pobreza no mundo? Poderíamos solucioná-la facilmente com os recursos que temos.

O altruísmo é a única característica que poderia abordar o presente a médio e longo prazo.

É necessário haver grandes reformas na educação. Não tenho filhos mas participo em 40 projetos humanitários com 15 mil crianças para quem construímos escolas e por isso tenho alguma experiência em lidar com crianças. E o que esperamos quando educamos as crianças? Transformá-los em seres humanos bons? Pessoas que sejam felizes na vida e não cometam suicídio? Bastará quando desenvolvermos suas inteligências e enchermos as suas cabeças de informação sem desenvolvermos nenhuma qualidade humana?

Queremos pessoas boas e equilibradas. Mas a educação parece estar interessada em tudo, menos isso. Portanto, isto é algo que está a faltar.

Estamos apenas a cultivar ferramentas. A inteligência é uma ferramenta. A informação é uma ferramenta. E uma ferramenta pode ser usada de modo construtivo, ou destrutivo ou pode-se não aproveitá-la. Podes usar um martelo para construir uma casa, destruí-la ou podes desperdiçar o martelo deixando-o na gaveta e nunca usá-lo. Uma ferramenta por si só, sem nenhuma intenção, atitude ou valor não é absolutamente nada.”

Talvez a compaixão seja a emoção que nos torna mais humanos.

Não podemos experimentar a compaixão pelos outros, sendo seres isolados. A nossa individualidade, de alguma forma suaviza-se, ao entramos em contacto com a dor e a necessidade alheia, promovendo no nosso interior, o desejo de ajudá-los.

A filosofia budista considera que, a real natureza do Homem é compassiva, e parte do seu treino mental está direccionado para aumentar e partilhar a emoção.

Quanto mais observamos a dor alheia, com o passar do tempo, passa a ser uma compaixão mais sossegada mas igualmente profunda. Um ponto de vista, onde somos tradicionalmente reconhecidos, como pessoas especiais e distintas, do resto da natureza.

No começo dos tempos, a ideia de sobrevivência dos mais aptos foi levada ao extremo por alguns filósofos do século XIX, como Herbert  Spencer que declarou: Os fracos e estúpidos da raça devem ser deixados a morrer, de modo que os fortes possam sobreviver e a raça humana em seu conjunto, progredir para se aperfeiçoar.

Finalmente, o senso comum voltou e ninguém mais duvida que o Homem possa se erguer e lutar pela sua sobrevivência. E que os comportamentos altruístas tenham espaço na sua natureza.

Graças aos avanços científicos, vivemos mais e em melhores condições, apesar de algumas complicações da ciência terem tido propósitos menos nobres.

O estudo das emoções positivas, como a compaixão, é muito recente e cada dia aumenta um pouco. Talvez seja a hora de virar a página e incorporar a compaixão. Não só como objecto de estudo e sim com a consciência de ciência que veio como um bem comum em todas as suas aplicações.

“Se quiseres cultivar o altruísmo, com a mente sempre distraída, não conseguirás cultivar nada. A mente dispersa-se aqui e ali. Mesmo que estejamos sentados, a nossa mente pode ser um macaco inquieto. Um macaco inquieto que pula de um lado para o outro. Os neurónios podem falar entre si. Precisamos de um pouco mais de calma, com mais claridade e estabilidade. Caso contrário não conseguiremos fazer nada.

É preciso de alguma forma usar objeto de concentração, para estabilizar a mente. Podes-te concentrar em qualquer coisa. Um objeto, uma flor, uma imagem mental. Mas algo bastante útil é concentrares-te na respiração. Porquê? Imagina que te concentras numa luz que pisca, cintilante. Podias estar a olhar para ela mas a tua mente continuava a perambular. Mas se te concentrares na tua respiração, é algo subtil que não podes ver. E se não te concentrares podes perdê-la. Assim torna-se fácil saber se estás distraído ou não.

Apenas com a respiração tens esta sensação. Quando respiras pelo nariz, tens uma ligeira sensação nos orifícios nasais. Trata-se de ficar sentado tranquilamente. Pensar em respirar pelo nariz e prestar atenção ao ar que sai e entra. Umas 21 vezes em 10 minutos. Fazer isto, permite que a tua mente se acalme. Muitas pessoas dirão: Eu não tenho jeito para isso! Em 3 minutos a minha mente está completamente distraída.” É normal, mas persiste na meditação porque a mente não está ainda treinada. Se não persistires, nunca aprenderás nada. Em vez de arrependimentos ou sentires-te culpado com ideias como “eu não sirvo para isto”, quando tiveres uma distração, não faças nada. Só tens que voltar à respiração. Se fizeres isso durante um tempo e repetires regularmente, verás que a mente está mais calma, mais limpa. E podes utilizar isso com mais flexibilidade, para cultivar o altruísmo, a compaixão ou o que quiseres”

Com ou sem meditação, vamos precisar de aprender aquelas matérias novas sobre as quais ninguém vos tinha falado antes. Os sistemas educativos, são absolutamente necessários, para termos uma visão um pouco mais correta, menos egoísta, mais compassiva do mundo e das relações humanas.

Da mesma forma que um desportista treina o seu corpo, devemos treinar a nossa mente para alcançar os nossos objetivos.

“Além de meditarmos sobre a compaixão, precisamos de praticá-la.” (Matthieu Ricard)

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