São informações que nós assumimos como verdades absolutas e completamente incontornáveis e que operam sempre a um nível inconsciente, ou pelo menos quase sempre a um nível inconsciente. E estas informações que nós vamos recolhendo ao longo da nossa vida - com base, não só em relação àquilo que nos passaram; muitas das crenças são heranças sociais e heranças de processos de socialização, mas também fruto de muitas das conclusões que nós vamos tirando com as experiências da nossa vida e que, entretanto, vamos relacionando. 

Imagina que eu fui rejeitado uma vez pelo meu pai, e depois, uma nova vez pela minha prima. Depois, entretanto, uma nova vez pelos meus colegas da escola, depois, entretanto, uma nova vez por uma namorada, por exemplo. Basicamente eu vou integrar isto como um princípio real, ou seja, eu sou rejeitável, eu não mereço a confiança daquelas pessoas, eu não sou merecedor do amor daquelas pessoas. E como as crenças também têm a capacidade de se generalizar, então eu vou simplificar isto, por eu não sou merecedor de amor e de afeto. E são conclusões que vamos tirando; muitas vezes não são coisas que nos dizem, nem são coisas que nós aprendemos com outras pessoas, tem muito a ver com a interpretação que damos às nossas próprias experiências.  

E é isto. As crenças que nós temos a nosso respeito, são, de facto, fruto destas conclusões que nós tiramos em relação a nós próprios perante determinadas situações. Elas encaixam-se nos nossos pilotos automáticos e nos nossos mecanismos automáticos e depois começam a fazer parte da nossa identidade, porque começam a fazer parte do nosso carácter, da forma como nós pensamos, da forma como nós percebemos as realidades e como nós reagimos. Por causa disso também a forma como nós nos comportamos e, obviamente, isto vai originar uma influência direta sobre os resultados que nós obtemos.  

Muitas vezes as crenças são quase imperceptíveis, são muito inconscientes, é muito importante que nós tenhamos consciência delas, trazê-las para a luz da consciência para as pôr em causa; para compreender que de facto elas têm alguma razão de ser ou não - porque muitas vezes não têm. E também é importante ter consciência das crenças para encontrarmos formas de as resinificar e de as reenquadrar na nossa forma de nos relacionarmos com as situações do dia-a-dia e com a vida.  

Para ficar então mais claro, aqui o exemplo da formação de crenças.  

Imagina que situações de fracasso geram crença de que nós não somos capazes, situações de abandono/rejeição geram crenças de que nós não somos suficientemente bons para sermos amados, situações de humilhação geram crenças de que as outras pessoas são más, ou que nós somos fracos e situações de falta de dinheiro geram crenças de que o dinheiro é uma coisa má. Então, são mecanismos automáticos e coisas que vão acontecendo ao longo da nossa vida, que nos levam a formar determinadas crenças. 

Os períodos de desenvolvimento das crenças e dos valores

Para ir ainda mais fundo nesta questão do desenvolvimento das crenças, houve um sociólogo americano, Morris Massey, que descreveu 3 períodos do desenvolvimento das nossas crenças e também dos nossos valores. 

O período da esponja, entre os 0 e os 7 anos de idade – é um período em que nós absorvemos tudo, e absorvemos tudo aquilo que nos rodeia, aceitamos tudo como verdade, especialmente quando vem dos nossos pais. Temos a tendência para desenvolver uma confiança cega em relação aquilo que os nossos pais nos transmitem em relação a tudo o que nós conhecemos neste pequeno mundo. Na socialização primária, os pais são as grandes referências e temos tendência a assumir como verdade tudo o que nos dizem e tudo o que fazem. Assim, criamos uma certa noção de normalidade. A nossa mente ainda não está suficientemente desenvolvida para termos um sentido crítico e é por isso que nós assumimos tudo isso como verdade e tudo isso como normal.  

O período da modelagem, entre os 8 e os 13 anos - neste período copiamos as outras pessoas, uma vez mais especialmente os nossos pais. Tendemos a fazer exatamente as mesmas coisas, a repetir os mesmos padrões de comportamento que os outros têm, e em vez de aceitarmos cegamente todas as informações, vamos experimentando aquelas com que nos sentimos melhor, que nos fazem sentir mais aceites com o grupo e com o grupo com que nos queremos identificar. Neste período, entre os 8 e os 13 anos, portanto, até à pré-adolescência, já estamos num processo de socialização secundária. Já estamos em socialização com pares, ou seja, com colegas da escola, com amigos e por isso, a nossa vontade de sermos integrados e de sermos aceites pelos grupos e sermos identificados pelos grupos, leva-nos muitas vezes a questionar alguma das coisas que vamos copiando dos nossos pais. Ainda assim, este é um período e que vamos modelando comportamentos: ou dos nossos líderes dos nossos grupos, ou dos pais, que, no fundo, são os líderes do nosso grupo familiar.  

O período da socialização que começa então com a adolescência, vai até aos 21 anos, portanto, entre os 14 e os 21 anos - é um período também bastante interessante, porque é quando consolidamos as nossas relações e os nossos valores sociais, começamos a querer cortar os nossos laços familiares, estabelecer novas ligações em termos de grupos, para que estes próprios grupos possam constituir uma parte da nossa identidade. “Eu sou membro deste grupo”, “eu sou gótico”, “eu sou metaleiro” – isto para dizer algumas das coisas que eram comuns na minha adolescência… Com certeza, neste momento existem outros grupos em que os adolescentes querem fazer parte. Porquê? Porque fazer parte de determinados grupos, comungar com determinados ideais, determinados conjuntos de crenças, determinados conjuntos de valores, ouvir um certo estilo de música acaba por fazer parte da nossa identidade- É um período em que estamos a tentar descobrir quem nós somos, em que nos estamos a construir de facto, e vamos tentando identificar as coisas em que queremos acreditar e que queremos seguir.  

Na verdade, estamos a seguir pessoas, estamos a seguir ainda os nossos líderes e estamos ainda a agir com vontade de sermos integrados e amados; nos grupos, com aqueles que nos identificamos, ou com aqueles em que nos sentimos melhor. E é isto. Muito do nosso comportamento, é explicado pelo desejo de pertença a este grupo, e para a interação com ele, ou seja, nós sentimo-nos melhor num determinado grupo, ou identificamo-nos melhor com determinado grupo, então acabamos por alterar a nossa estrutura de valores e de crenças, no sentido de fazermos parte. Com isto alteramos também o nosso próprio comportamento no sentido de podermos ser aceites e de garantirmos que podemos ser aceites por esse grupo, que façamos parte deles e que também ele faça parte de nós.  

É curioso que cada vez mais – e eu pensava que na minha adolescência isto era marcante, mas eu penso que cada vez mais - este período é muito marcado por “subculturas”? Porque o mundo está cada vez mais cosmopolita; com influências, com processos de globalização, recebemos hoje influências de todos os cantos do planeta. E com a liberdade de expressão e a multiplicidade de canais de comunicação, também recebemos influências de muitas subculturas, e, portanto, subculturas que se vão misturando umas com as outras, e vão criando novas subculturas; novos conjuntos de crenças, novos grupos, novos valores. 

Há uma crescente diversidade em termos de subculturas, exatamente por causa disto. Por causa destes dois fenómenos, ou seja, liberdade; pelo menos nas sociedades ocidentais, que permite a expressão das ideias das pessoas e, por outro lado também, a globalização e todos os canais de comunicação que a globalização criou, que fazem com que seja fácil estas ideias misturarem-se e difundirem-se pelo mundo e, portanto, afetarem ou alcançarem outras pessoas e outros seguidores.  

Uma sociedade sem valores? 

O momento em que vivemos é um período extremamente interessante e extremamente rico em termos sociológicos e muitas vezes nós dizemos: - “Ah, porque agora vivemos numa sociedade sem valores”. Isso não é verdade, o que vivemos é numa sociedade com valores diferentes daqueles que são os nossos valores, os valores com os quais nós nos identificamos.  

Com certeza todas as subculturas e todos estes produtos subculturais terão determinados valores, que lhes são próprios. Se são positivos ou negativos, isso é uma outra questão; nem sei quem é que terá a capacidade de distinguir daquilo que é bom daquilo que é mau, mas, de facto, nós não vivemos hoje numa sociedade sem valores. O ser humano, a humanidade, precisa de valores e também de crenças sociais, para conseguir subsistir enquanto sociedade. Vivemos de facto um período de transmutação de valores, ou seja, hoje em dia colocam-se valores diferentes daqueles que os mais velhos conheceram.  

Então esta transmutação que tem estes 2 pólos de influência sobretudo, as questões das liberdades (que permitem uma expressão de opiniões mais alargada e a geração de novas opiniões e, portanto, a liberdade também de as manifestarem), e as ferramentas de comunicação que temos hoje em dia, sobretudo com o advento da internet.  

O que é certo é que se difundem ideias por múltiplos canais, então as pessoas hoje são apanhadas no meio do jogo destes canais de comunicação e múltiplas mensagens e vão criando a sua própria estrutura de valores com estas influências. É por isso que muitas vezes têm valores que nós não conhecemos.  

Mas não é verdade que nós não tenhamos valores sociais. Temos valores sociais diferentes daqueles que nós conhecemos. E aceitar isto é importante para nós conseguirmos interpretar o que se passa à nossa volta.  

A família é o berço da individualização

Então, as nossas crenças são desenvolvidas em torno destes principais valores adquiridos na primeira infância. Se é verdade que nós somos muito afetados pelas subculturas e somos convidados a cultivar e a adquirir determinados valores ao longo do nosso processo de crescimento, nomeadamente na adolescência, também é verdade que a grande estrutura de valores que nós temos é pela nossa socialização primária, ou seja, aquela que nos é transmitida pelos nossos núcleos familiares. E estes valores que são adquiridos na primeira infância vão ser extremamente estruturantes para o bem e para o mal, durante toda a nossa vida.  

Cuidado com aquilo em que acreditas

Algumas coisas mais sobre as crenças limitadoras que é importante que tu saibas, para que estejas alerta. As crenças têm tendência a confirmarem-se, se tu acreditas que não és capaz, tu vais comprovar que não és capaz.  

O Henry Ford tinha uma frase muito engraçada que dizia: Quer tu acredites que podes, quer tu acredites que não podes, tu tens razão, ou seja, a nossa crença tem um poder tão grande na nossa perceção, na nossa tomada de decisão e no nosso comportamento, que parece que os nossos resultados – que, no fundo, são fruto do nosso comportamento – acabam sempre por comprovar as nossas crenças. Isto para que também compreendas o papel absolutamente determinante que as crenças têm na geração dos nossos resultados e é um alerta para que fiques atento: as crenças têm tendência a confirmarem-se. 

Se tu achas que é difícil ganhar dinheiro, vai ser difícil ganhar dinheiro; se tu achas que é difícil encontrar uma pessoa honesta com quem partilhares a vida; vai ser difícil, se tu achas que todos os homens traem ou que todas as mulheres traem; tu vais encontrar pessoas que traem. Sublinho este alerta porque é de facto muito importante: cuidado porque as crenças têm tendência a confirmarem-se. 

Realidade transformada 

E depois, outra coisa que também é interessante, é que como as crenças se tornam parte da nossa cultura, da nossa identidade, nós vamos defendê-las com unhas e dentes. Por isso, é que, por exemplo, os talibãs que têm um conjunto de crenças que os levam a suicidar-se para irem para o céu porque vão beneficiar da presença de 40 virgens que vão saciar todos os seus desejos. Portanto eles suicidam-se para irem para o céu, e se tu puseres em causa isso, a um talibã, ele com certeza não vai ficar com boa impressão de ti... não vai ser teu amigo.  

Da mesma maneira que se pusermos em causa as crenças religiosas de um católico ou de um muçulmano - ou seja lá de que pessoa for - essa pessoa tem tendência a defender essas crenças com unhas e dentes, ela não é capaz de ver além disso. 

As crenças desempenham um papel quase como umas lentes de uns óculos, ou seja, as pessoas vêm uma realidade transformada por essas crenças e não são capazes de estar permeáveis a outros argumentos que contrariem aquilo em que elas acreditam e, portanto, elas vão defender até às últimas consequências as suas crenças.  

As crenças são parte da nossa identidade, um ataque às nossas crenças individuais é percebido, inconscientemente, como um ataque pessoal. E um ataque às crenças coletivas, às crenças do grupo, é considerado um ataque à identidade cultural, um ataque ao grupo, e é por isso que automaticamente, se despoletam nos indivíduos processos internos inconscientes com vista a defender as crenças.  

Infelizmente quase todas as nossas crenças têm tendência a ser limitantes. A as crenças limitantes são as verdadeiras vilãs. São elas que estão a condicionar as nossas vidas. 

É por isso que nós a seguir vamos desafiar as crenças, vamos conhecê-las e vamos desafiá-las. É quase como um processo de exorcismo; se quiseres ter melhores resultados, precisas de desenvolver um conjunto de crenças mais empoderadoras, mais poderosas, que te possam dar poder, ou pelo menos libertares-te dessas crenças que te limitam.