De seguida, vou-te falar sobre duas palavras. Pode parecer que têm alguma semelhança, mas são bastante diferentes. A sua compreensão abre a porta a uma mágica independência emocional.  

Estas palavras são: solidão e solitude. O que é que essas palavras têm em comum e o que é que essas palavras têm de antagónico, o que é que as separa?  

Antes de responder, deixa-me dizer-te que este foi um conteúdo ou uma diferenciação, um conhecimento, se quiseres, que fez muita diferença para mim. Marcou-me bastante saber a diferença entre a solidão e a solitude. Permitiu-me começar a apostar no desenvolvimento da minha independência emocional. As emoções são, como sabes, uma grande fonte de dependências.  

A maioria das pessoas busca um relacionamento, busca no outro aquilo que não encontra em si mesma e fá-lo de uma forma bastante desesperada. Então, quer seja amor, afeto, amizade, reconhecimento, o que é certo é que parece que buscamos externamente aquilo que não existe em nós. Colocamos a expectativa de obter de fontes externas aquilo que não existe e que não somos capazes de alimentar, dentro de nós. Assim, se necessitamos tão desesperadamente de alguma coisa que não existe em nós e que precisamos de ir buscar a outra pessoa, além de corrermos o risco de estar a sugar os outros, acabamos também por entrar numa situação de dependência emocional. Quando tu queres alguma coisa que não és capaz de produzir, dependes de outra pessoa para te entregar, isto é uma dependência. Quando se trata de emoções, é uma dependência emocional. 

Eu também passei por esta necessidade e por este medo de estar ou de ficar sozinho. Se calhar, foi o medo que mais me paralisou, ao longo de vários anos, e encontrei a resposta para o medo da solidão num texto do Osho, que falava da solidão e da solitude, um novo conceito para mim. 

A solitude significa ter prazer em estar sozinho, em gostar da minha própria companhia. Agora, podes perguntar: “Mas como é que eu posso gostar da minha própria companhia, se, na verdade, eu não me suporto; se, na verdade, eu não me acho completo; se não me identifico com a minha vida; se preciso de outras pessoas para me completarem; se preciso dos outros para me amarem, porque eu não sou capaz de me amar; se tenho medo de ficar sozinho; se, basicamente, nem sequer me aturo. Como é que eu posso, então, superar o medo da solidão e desenvolver o prazer de estar sozinho?” 

Mais uma vez, a resposta é: tentar ir às causas. Porque é que tu não gostas de estar sozinho? Na verdade, do que tens e porque tens medo? 

Está cada vez mais descrito que o medo de estar sozinho é, no fundo, o medo de não obtermos o amor dos outros, o amor que necessitamos dos outros. Nós precisamos de amor, ele é uma condição fundamental para a nossa sobrevivência e subsistência. Se não conseguimos encontrar internamente esta fonte de amor-próprio, vamos buscá-la desesperadamente nas outras pessoas. 

“Mas então, como é que eu desenvolvo este amor-próprio?” Esta é uma grande questão, a que eu me dedico a tentar responder há muitos anos. Não querendo ter uma fórmula mágica para o desenvolvimento do amor-próprio - se calhar, nem acredito que isso exista -, dou-te algumas dicas. 

A primeira é que te aceites, tal como és. Deixa de lutar contra ti próprio, deixa de lutar contra a tua natureza, contra os teus desejos, contra a tua realidade. Aceita! Aceita as coisas tal como elas são, aceita-te a ti tal como és, com as tuas vulnerabilidades, com as tuas fraquezas e, seguramente também, com as tuas forças.  

Desiste. Uma vez mais, vou-te repetir isto: desiste de lutar contra ti mesmo. Depois de desistires de lutar contra ti mesmo, esquece a história da autoestima - como falaremos noutro capítulo -, e desenvolve a verdadeira autocompaixão.

A autoestima resulta da comparação com os outros. “Ele é melhor nisto, eu sou melhor naquilo. Eu tenho mais. Eu sou menos. Sou mais alto, mais baixo, mais gordo, mais magro, mais bonito, mais feio,...” Então, para sublinhar o ponto anterior, desenvolve autocompaixão que, no fundo, é aceitares-te tal como és, e esta é uma condição extremamente útil para que possas desenvolver amor-próprio. 

Quando tiveres desenvolvido autocompaixão e deixado de lutar contra ti mesmo, poderás fazer um esforço para te conheceres melhor, para conheceres melhor as tuas necessidades, os teus desejos, os teus valores, as tuas crenças, os teus hábitos. Tenta observar-te cada vez mais de perto. 

Existem tantas ferramentas para te conheceres. É importante que “arregaces as mangas” e escolhas aquelas que fazem mais sentido para ti. Então, esta dica é sobre conheceres-te melhor, saber quem realmente és, e sobre quem realmente queres ser. Isto vai-te fazer acreditar mais em ti e a descobrir o que é que te dá prazer fazer sozinho, sem seres dependente, de ninguém. Quando o descobrires como o podes desenvolver, vais entrar nessa caminhada de desenvolvimento do amor-próprio.  

Sem querer uma fórmula mágica, estes seriam alguns passos: aceitares-te tal como és; desenvolver a autocompaixão; conheceres-te melhor; acreditares mais em ti e descobrir o que te dá prazer fazer ou ser, mesmo que sozinho.  

No meu caso, quando fiz esta descoberta comecei a ler mais, a querer saber mais sobre o desenvolvimento pessoal e isso também me trouxe a prática de meditação. Fui viver sozinho, plantei uma horta, fiz uma série de coisas que, para mim, faziam sentido e que, no fundo, mudaram a minha rotina, a forma como penso. Antes disso, eu nem sequer era capaz de ir ao cinema sem companhia, e o mais curioso é que me sentia dependente de outras pessoas, quando sentia que estar sozinho era difícil para mim. Tinha muito medo da solidão. Na verdade, tinha alguma dificuldade em desenvolver relacionamentos transparentes, honestos e duradouros com as pessoas, então acabava por desenvolver relacionamentos mais rápidos, mas com muito menos profundidade, mais superficiais. 

Quando comecei a fazer este exercício de autocompaixão, de desenvolvimento de amor-próprio e a dedicar mais tempo a mim, comecei a sentir-me melhor comigo mesmo. Ter relacionamentos com outras pessoas já não era uma questão de urgência. Assim, tornei-me um pouco mais seletivo no tipo de relacionamentos que eu queria criar, o que fez com que fossem surgindo relacionamentos muito mais interessantes, mais produtivos para mim e que, no fundo, me traziam a completude de que eu precisava antes. 

Basicamente, isto é uma pescadinha de rabo na boca: tens medo de ficar sozinho, acabas por ter comportamentos que são menos adequados e afastam as pessoas que verdadeiramente te interessam. Consequentemente, vais-te sentir mais sozinho e entras num círculo vicioso. Pelo contrário, quando começas a ter prazer na solitude, começas a ter prazer em estar só, em estar contigo, fazer companhia a ti mesmo e a sentires-te mais independente. Quando entras num relacionamento, já não corres o risco de sugar ninguém. Entras num relacionamento muito mais para cooperar, para acrescentar aos outros e, por isso, as outras pessoas também ficam mais recetivas a ti.  

Neste momento, gostava de te lembrar uma frase do João Soares, que repito tantas vezes, que diz: “A melhor maneira de ser feliz com alguém é aprender a ser feliz sozinho. Daí, a companhia será uma questão de escolha e não uma questão de necessidade”.   

Em resumo, a solidão é a dor que sentimos quando não temos ninguém a quem sugar o amor que não temos de nós próprios – desculpa esta definição, pode ser um bocadinho dura e pode parecer um bocadinho violenta, mas é mesmo isto.  A solidão é o que sentimos quando não temos ninguém a quem sugar o amor que não somos capazes de desenvolver por nós mesmos. 

A solitude é a realização mais plena do amor-próprio, é o prazer da própria companhia. É a porta de entrada para uma vida mais autêntica e, além disso, verdadeiramente realizada, com amor verdadeiro. Lembra-te de que te disse, há pouco, que precisamos de amor para viver, mas, de preferência, precisamos que este amor seja verdadeiro e autêntico. 

Portanto, quando partimos da solidão e do sentimento da solitude à procura do amor, dificilmente vamos encontrar, porque vamos ter tendência a criar conexões, se calhar, com as primeiras pessoas que aparecem e que nem sempre são as mais certas. Na verdade, vamo-nos apegar àquilo que achamos que essas pessoas têm para nos acrescentar. Dessa forma, não surge espaço para o verdadeiro amor, para a verdadeira intimidade, para a verdadeira paixão e muito menos para o verdadeiro compromisso. Será, com certeza, uma relação bastante mais violenta. 

Se queres mesmo vencer a solidão, convido-te a conhecer este termo Solitude, que é a porta de entrada para uma vida mais independente, em termos emocionais, e curiosamente também para o estabelecimento de relações emocionais mais francas, mais duradouras e mais saudáveis.