Como dizia anteriormente, sem dúvida que o conceito da autoestima é fundamental para o bem-estar psicológico do ser humano, mas este conceito tem sido questionado por vários pensadores ao longo dos últimos anos, sobretudo por causa da forma como nós desenvolvemos a autoestima. Quando nós somos crianças, nós não temos noção de nós próprios, então temos tendência a construir a imagem própria, por comparação com as pessoas que nos rodeiam, com os outros. E esta comparação também é apoiada externamente, as pessoas tendem a comparar-nos com outras pessoas.  

“– ah, aquela pessoa é que é melhor, devias ser como aquele”, quem nunca ouviu isso, não é?  

“- tu devias ser mais assim, estás melhor com aquele.”, “aquele é melhor que tu”.  

Todos nós ouvimos isso, de certeza absoluta, durante o nosso processo de crescimento.  

De alguma maneira somos estimulados a compararmo-nos permanentemente. Vendem-nos a ideia de que para sermos bons, temos de ser mais, temos que ter mais, temos de ter o melhor, ser o melhor. E assim começa uma competição entre nós.  

É engraçado observar que o termo em inglês para raça humana e para corrida humana é o mesmo - “The Human Race” - e isto acaba muitas vezes por ser autodestrutivo. 

Uma comparação injusta e tendenciosa.

Porque queremos salientar-nos em determinados aspetos que consideramos mais importantes. O problema é que nós tendemos muito a hipervalorizar os aspetos positivos dos outros, e os nossos aspetos mais negativos que são aqueles que nos causam mais dano, que nos causam mais aflição. A comparação que vamos fazer é entre aquilo que vemos do outro - que é o melhor dele ou o melhor que ele mostra, com aquilo que é o pior que nós sentimos em nós.  

Como deves compreender, não é possível ganhar esta comparação, esta comparação não é justa simplesmente, acaba até por ser bastante idiota. Mas a verdade é que fazemos esta comparação com alguma frequência de uma forma absolutamente inconsciente, porque aprendemos durante o nosso processo de crescimento que, de facto, deveríamos ser melhor que os outros e deveríamos fazer melhor que os outros. E isto não é justo! É uma escravatura da nossa mente, porque acabamos por não nos conseguimos livrar dela.  

O pior é o que acontece depois disto. Como a galinha da vizinha é sempre mais gorda do que a minha, ou parece ser mais gorda do que a minha, vamos então comparar-nos permanentemente e acaba por ser negativo, ou seja, acabamos na maior parte das vezes por ficar numa posição desfavorável. 

Ou aceitamos isso, ou então nós vamos hipervalorizar algumas características mais positivas e exacerbar uma parte da nossa autoestima, o que também não é socialmente muito desejável nem sequer bem-aceite; ninguém gosta daquelas pessoas que passam a vida a gabar-se dos seus feitos ou a gabar-se das suas características mais positivas. 

O que fazemos inconscientemente é de alguma forma tender a diminuir o outro, a desvalorizar as suas reais qualidades, e isto através de expressões do género: “ele teve sorte”, “a vida foi mais fácil para ele”, “no lugar dele eu também conseguia, se calhar até ia conseguir muito mais”. No fundo, é uma tentativa de nivelamento para tentar equilibrar as qualidades que percebemos no outro, com as nossas “faltas de qualidade”. 

O problema é que estamos a comparar estes critérios, os critérios que vemos no outro e, de facto, há coisas em que provavelmente nós temos outras competências. Provavelmente temos outros pontos mais favoráveis que valeria a pena investir em observar. 

Parece que não é tanto assim. Tendemos sempre a ver aquilo em que somos inferiores aos outros, tendemos muitas vezes pelo menos a ver aquilo em que somos inferiores aos outros e a comparar-nos com base nisso, como que a comprovar um certo complexo de inferioridade que se esconde secretamente no íntimo de muitos de nós. 

Mas de qualquer forma aí surge uma espécie de um círculo vicioso que não pode acabar bem. O sentimento de inadaptação, de inadequação, a baixa autoestima, a tristeza permanente, ou pelo menos muito frequente, as crenças limitadoras, a desvalorização ou não reconhecimento das nossas capacidades e das nossas qualidades, as relações caóticas que acabam por vir um pouco disso e, como consequência, maior privação de afeto que levam inevitavelmente à depressão e em casos mais extremos até pode conduzir ao suicídio.  

A ideia da autoestima tem vindo a ser questionada por causa disto. Por causa da maneira como nós a formamos, que se baseia na comparação e na competição uns entre outros. Parece que não é a melhor forma, porque nós deveríamos valorizar quer as nossas qualidades - quer as nossas fraquezas e estarmos à vontade também para apreciar as qualidades dos outros que nos servem até de exemplo para nós próprios resolvermos as nossas próprias fraquezas, de uma forma consciente e deliberada 

Então em oposição ou quase que em complemento a esta ideia da autoestima, uma psicóloga norte-americana que é a Kristin Neff, sugere um termo que é autocompaixão. No fundo, é a aceitação plena do que somos, a aceitação daquilo que é a nossa vida, daquilo que é a nossa história, daquilo que é a nossa circunstância, daquilo que é o nosso momento e de todas as oportunidades e possibilidades que esse momento nos traz. Não vamos confundir a autocompaixão com a autocomiseração, com o termos pena de nós próprios. A autocompaixão é uma forma de nós desenvolvermos empatia, intimidade verdadeira connosco mesmos.  

De facto, não precisamos de ser melhores que ninguém. Não precisamos de ter melhor que ninguém e nem sequer precisamos de provar nada a ninguém. Só precisamos é de parar de nos criticar e de nos aceitarmos como somos, porque só assim é que podemos desenvolver o primeiro grande pilar do desenvolvimento do amor-próprio que é a intimidade connosco próprios.

Imagina que tens um amigo que te está sempre a criticar, tu verdadeiramente consegues ser íntimo desse teu amigo que está constantemente a criticar-te? Provavelmente não vais conseguir. E, na verdade, há muitos de nós que fazemos isto a nós próprios; passamos muitas horas do nosso dia a criticar-nos. Isto afasta e inviabiliza qualquer possibilidade de autoconhecimento, de mergulharmos em nós próprios e desenvolvermos uma verdadeira intimidade. E muitas vezes a fonte de respostas mais segura para as nossas questões do dia-a-dia, e é incrível porque quando nos aceitamos a nós próprios - mesmo com aqueles pontos menos positivos - ganhamos verdadeiramente condições para evoluir, para nos transformarmos.

Quando deixamos de lutar contra nós próprios, quando nos libertamos desta escravatura, deste paradigma da comparação e da crítica constante, desistimos de lutar contra nós mesmos e começamos a focar-nos mais naquilo que queremos construir, naquilo em que queremos melhorar, naquilo em que queremos evoluir e começamos a focar-nos bastante menos naquilo que queremos evitar, nesse complexo de inferioridade e nessa cadeia de desvalorização pessoal.  

E é assim que abrimos caminho à verdadeira cooperação, a um crescimento pessoal mais saudável e a uma interação social mais autêntica - cada um ciente dos seus pontos mais positivos e dos seus pontos mais negativos, e também ciente dos pontos positivos e negativos do outro - e também o reconhecimento de que todos estamos em níveis de evolução diferentes, e que não há o certo nem o errado, não há bem nem mal. Temos o direito de sermos nós próprios e, portanto, é preciso resgatarmos esse direito.  

Uma questão de escolha.

Proponho-te esta reflexão com vista a fazeres uma escolha entre a autoestima e a autocompaixão. Eu pessoalmente prefiro integrar estes dois paradoxos, eliminando esta ideia da competição e favorecendo a competição. 

Há um e-book, que eu te proponho, que escrevi sobre os passos que eu próprio segui para a reconstrução da minha autoestima, que te recomendo que leias e sigas. 

Mas o essencial é assumires a liberdade de seres quem tu próprio és, com a responsabilidade de melhorar a cada dia. Teres a responsabilidade de assumires a construção do teu próprio caminho e seguires o teu próprio caminho, conquistando dia após dia, a melhor versão possível de ti próprio.  

E, se possível, quanto tiveres alcançado esta versão melhorada de ti próprio, oferece-a aos outros; partilha com outros. Aceita o também feedback que os outros te dão, os exemplos que te oferecem. 

Assim, vamos cooperando e crescendo em conjunto e também vamos ajudando outras pessoas; vamos fazendo a diferença na vida de outras pessoas. 

E, acredita, que não há nada que contribua tanto para o nosso sentido de realização pessoal, como o nosso contributo para o crescimento e para o bem-estar de outro ser humano. 

Afinal, nascemos para servir e não nascemos para ser servidos. 

Para saberes mais sobre a injustiça de te comparares com os outros carrega AQUI