Neste artigo quero falar-te sobre um tema que é muito, muito importante, porque surge muito como impedimento ao amor-próprio, que é o receio de ser egoísta?  

O que é que é isto de ser egoísta?  

E porque é que amor-próprio e egoísmo são coisas diferentes? 

Ser egoísta é ser conduzido pelo ego. E ser conduzido pelo ego é ser, sobretudo, conduzido pelas suas próprias emoções e pelas emoções mais primárias. Pelas necessidades mais primárias. 

O Ego é um mecanismo da nossa psique que, no fundo, serve de mediador entre aquilo que somos nós externamente daquilo que somos nós internamente, que é a nossa essência, também isto traz muitos desejos e as necessidades. 

Ser egoísta no limite é pôr à frente estes desejos e estas necessidades, pôr isto à frente do bem-estar de outras pessoas. Ser egoísta não é, então, pores-te em primeiro lugar. Isso é legítimo, que tu te ponhas em primeiro lugar; o que não é legítimo é que para satisfazeres as tuas necessidades tu tenhas de retirar valor ao outro, tenhas de passar por cima do outro - isso é que é egoísmo.  

O egoísmo difere muito de amor-próprio, que é tu quereres de facto que as tuas necessidades sejam supridas, sejam entendidas. Tu quereres ter relações positivas, tu quereres viver em paz, tu quereres a tua dose de liberdade, tu quereres a tua dose de independência, quereres alcançar determinados estádios - isso é legítimo. Só deixa de ser legítimo quando, para alcançares esses teus desejos, tu interferes nas liberdades, necessidades, garantias ou, se calhar até, nos desejos do outro. 

Claro, que depois há aqui um tema no egoísmo, que é muito importante, que é o tema das relações, sobretudo, as relações mais próximas. Quando eu quero uma coisa, e o outro quer outra, como é que fazemos?  

Quando tu percebes também este mecanismo do egoísmo, quando tu o aceitas, tu também consegues percebê-lo, consegues perceber que, se calhar, as tuas necessidades são relativamente inferiores àquilo que o outro necessita em determinado momento, ou então tens a capacidade de tu também fazeres o outro ver a importância que determinadas necessidades têm para ti. 

Se nós, para além das opiniões ou da vontade expressa, percebermos então qual é o grau de importância que esta vontade tem para nós individualmente, vai ser mais fácil balancear e tomar a posição que for melhor para ti, sendo que nesta balança tem sempre que ter em conta uma coisa muito chata, mas muito importante: é que no fim da tua vida tu vais morrer sozinho e isso quer dizer que tu és responsável por aquilo que tu fazes. 

E tens o direito a ser feliz e tens o direito de ser livre e tens o direito de ser independente, de te sentires bem, de te sentires realizado, de te sentires autodeterminado. Portanto, é este equilíbrio entre aquilo que é legítimo e aquilo que não é legítimo que às vezes te pode pôr em causa no contexto das relações. 

Desde que eu não prejudique ninguém para alcançar os meus objetivos, eu não tenho nenhum medo de correr atrás da satisfação das minhas necessidades. Isso não é egoísmo; isso é amor-próprio. 

Faz também parte do processo de construção de mim mesmo e do meu processo de evolução, e quanto mais eu evoluir, quanto mais eu recolher para mim, também mais eu posso partilhar com os outros. 

Portanto, egoísmo e amor-próprio são coisas diferentes.  

Deixa-me terminar com um exemplo que eu ouvi algumas vezes já, que é o exemplo da máscara de oxigénio dos aviões. 

Se tu já andaste de avião e ouviste as instruções que as hospedeiras te dão no início do voo; que se caírem as máscaras, numa situação de despressurização do avião, se caírem as máscaras e se tu fores responsável por uma pessoa diminuída, por uma criança ou por um idoso, tu tens de pôr a máscara primeiro em ti mesmo, e só depois é que vais colocar no outro  e isso não é egoísmo, é uma questão lógica muito racional. É que se tu não nutrires a tua necessidade de respirar, tu simplesmente não vais estar em condições para ajudar o outro a nutrir a sua necessidade. Por isso é que pormo-nos primeiro, não é ilegítimo, mas é normal e é até fundamental para a nossa sobrevivência, da qual também depende naturalmente aquilo que nós estamos disponíveis para dar ao outro. 

Espero que te tenhas libertado desse paradigma de pensar que amor-próprio se calhar é egoísmo, porque é um paradigma que nos deixa muitas vezes presos a relações e até permeáveis à chantagem emocional de outras pessoas. 

Convém que te libertes disso, para tu poderes ter uma vida mais realizada, mais tranquila, com mais liberdade, com mais independência e com mais autonomia. Estes condimentos são essenciais para o teu bem-estar psicológico e para a tua liberdade.