Nesta fase da desconstrução desta pirâmide da construção da nossa realidade, vamos falar sobre as questões da nossa decisão e da nossa perceção. 

Este artigo é especificamente feito para ajudar a perceber as coisas que atrapalham ou que causam algum enviesamento dos nossos processos de decisão e dos nossos processos de perceção. No fundo, este conhecimento que te vou transmitir agora baseia-se na conjugação do conhecimento budista com o conhecimento platónico e o aristotélico. 

Resolvi chamar a este artigo: “Os 6 Venenos da Mente''. Buda falava em 3, depois, Platão, Sócrates e Aristóteles noutros 3, então, vamos juntar aqui os 6 venenos da nossa mente.  

O primeiro conjunto de 3 venenos afeta a nossa capacidade de compreensão, a nossa capacidade de percepção da realidade. Os outros 3 afetam a nossa capacidade de decisão, ou a bondade, se quiseres, das nossas decisões.  

Vamos começar pelos que afetam a nossa perceção. 

A primeira coisa que afeta a nossa percepção e a forma como vemos a realidade e as circunstâncias que nos rodeiam é uma coisa chamada culpa. A culpa também aparece sob a forma de ressentimento quando foi praticada por uma terceira pessoa, quando outra pessoa fez algo que me magoou e, portanto, eu tenho dificuldade em perdoar. 

A segunda energia que afeta muito a capacidade de percepção da realidade é a vergonha

A terceira é a ignorância.  

Então, vamos desmontar uma a uma. 

A primeira questão, a questão da culpa. A culpa é um sentimento que todos os seres humanos têm, consciente ou inconscientemente, porque em algum momento errámos, fizemos coisas que não deveríamos ter feito e fizemos coisas da forma que não devíamos ter feito. Por outras palavras, não estamos orgulhosos, nem da forma, nem do conteúdo dos nossos atos. Desenvolvemos o sentimento de culpa, porque percebemos que esta nossa ação causou prejuízo, a nós ou a outras pessoas. Normalmente, é mais fácil de perceber quando causamos dano aos outros. É fácil de perceber, mas nem sempre é fácil de aceitar, porque a mente humana tem um mecanismo de rejeição automática da culpa. Nós não queremos esta coisa da culpa. A razão pela qual eu acho que não aceitamos a culpa é porque a nossa grande necessidade (como viste na construção da pirâmide) é a de sermos aceites e amados. Nós rejeitamos as pessoas que fazem coisas más, portanto, basicamente, rejeitamos culpados. Portanto, nós queremos rejeitar a culpa, com medo de sermos rejeitados e, muitas vezes, somos nós quem rejeita. 

Não sei se esse pensamento está muito rebuscado, mas vou tentar explicar um pouco melhor. A nossa maior necessidade, a maior de todas as necessidades dos seres humanos, é ser amado e ser aceite (ou, por consequência, ser aceite). É a necessidade mais elementar. Reconhecer que sou culpado de alguma coisa é reconhecer que não sou digno de ser aceite. Instintivamente eu rejeito, automaticamente, a culpa.  
Por outro lado, a culpa é um sentimento perpétuo, vitalício. Quando fizeste alguma coisa, algum ato do qual te sentes culpado, não há nada que possas fazer que possa aliviar dessa dor. Essa dor é permanente e é vitalícia, é para sempre. Não há nada que possas fazer que te possa aliviar dessa questão da culpa, porque nada vai reparar integralmente esses danos. Nada te vai fazer voltar atrás. Nada te vai fazer não ter esse comportamento de não ter praticado determinada ação, ou até ter determinado sentimento, porque às vezes sentimo-nos culpados até dos nossos sentimentos, dos nossos próprios pensamentos. Então, a culpa é muito virada para aquilo que queremos evitar, ou seja, é muito virada para o passado e, como tal, isso não pode ser resolvido. Os atos do passado já não são um problema. Já são um facto, portanto, já não podem ser resolvidos.

Mas tu podes resinificar a culpa e começar-lhe a chamar responsabilidade.  Quando começas a chamar este sentimento de responsabilidade, em vez de ter um peso vitalício e perpétuo da inadequação, vai-te dar a possibilidade de modelares novos comportamentos no futuro. Vai-te dar a possibilidade de repensar a tua atitude, perante determinadas questões. Vai-te dar a possibilidade de decidir de outra forma. Vai-te dar necessidade de agir de uma forma que, de facto, produzam os resultados que queres obter. 

Por outro lado, se pensares bem, tu já magoaste pessoas, mas fizeste-o sem consciência. Tenho a certeza absoluta de que tu nunca o fizeste com a consciência plena do resultado, ou seja, exatamente para as magoar, simplesmente para magoar alguém. O ser humano não é capaz de fazer isso. Quando fazemos algo que magoe, que cause dano a outra pessoa, a nossa intenção não é causar esse dano. Portanto, todas as ações que o ser humano é capaz de empreender (eu sei que isto é difícil de compreender, de aceitar até) têm um objetivo positivo, têm um fundamento positivo, todas. Portanto, qualquer coisa que tenhas feito de que te sintas culpado, fizeste-o por uma boa razão e, quase sempre, sem consciência do dano que ias causar. Talvez não mereças essa condenação perpétua! 

Trocando, então, pelo termo “responsabilidade”, já te dá muito mais possibilidades de repensares, de cresceres, de assumires que és um ser errante e que pode melhorar, no futuro. Isto também te ajuda a resolver a questão do ressentimento, porque, da mesma maneira que ages com boas intenções, mas acabas por fazer coisas das quais não te orgulhas, as outras pessoas, muitas vezes, também acabam por te magoar, da mesma maneira que tu magoaste alguém. Isso ajuda-nos a resinificar esta coisa a que chamamos ressentimento e a perdoar, a nós e aos outros. 

Atenção!

Perdão não significa um salvo-conduto para que a pessoa possa repetir esses comportamentos, nem comportamentos gravosos ou que provoquem danos.  Isso significa que compreendes que, naquela circunstância, fizeste o melhor de ti e aquela pessoa fez o melhor que ela podia. Se queres, no futuro, produzir um melhor resultado, então podes assumir a responsabilidade de teres mais recursos, de teres mais formas para dar naquele momento. Então, isto resinifica a culpa que, muitas vezes (como nós rejeitamos), faz com que não vejamos a realidade tal como ela é, porque não queremos assumir a responsabilidade, e, portanto, tentamos descartá-la para outra pessoa que, por sua vez, também se vai sentir agredida por sentir que não tem essa responsabilidade. Consequentemente, cria-se uma situação de conflito. Então, se perceberes isso como responsabilidade, se perceberes que o que conta é sempre a tua atitude perante o problema e não o problema em si, vais assumir a responsabilidade, vais assumir a liderança das situações e não precisas de ter culpa. Preferes o termo responsabilidade, e o enviesamento da perceção vai desaparecer com esta simples mudança de atitude. 

A dica, neste caso, é substituir o termo culpa pelo termo responsabilidade, porque a culpa encerra-se em si própria. Já não há muito que possas fazer, além de pedir desculpa, mas isso também não resolve tudo. Então, o termo responsabilidade dá-te muitas possibilidades de expansão e de desenvolvimento de novos comportamentos, no futuro. 

A segunda coisa de que te queria falar é a questão da vergonha. Quando não és capaz de te assumir perante os outros exatamente como és, que tem a ver com o peso que nós damos à opinião dos outros. Este peso excessivo está relacionado com o facto de não sabermos quem somos. Quando nascemos, quando somos bebés, nós não temos noção de nós mesmos, nem sequer do nosso corpo, só temos noção do que projetamos nos outros, do que são os outros. Portanto, o que é positivo é o que causa um efeito positivo nos outros. O que é negativo é o que causa efeito negativo nos outros.  

Eu tenho um filho que está em processo de desenvolvimento. Ele tem agora 3 anos e meio. Se ele fizer alguma coisa que eu ache piada e que o valorize, ele vai repetir. Se ele fizer alguma e eu o repreender, ou que o faça sentir que não gostei, ele vai tentar evitar no futuro. No fundo, ele adequa-se a um ambiente externo. 
Como nós não temos consciência, vemos aquilo que somos, ou sentimos aquilo que somos, pelo reflexo que temos nos outros. Por isso, neste sentimento da vergonha, temos receio do efeito que determinada preferência da nossa parte vá causar nos outros e na forma como os outros nos veem, porque, na realidade, orientamos a perceção para aquilo que os outros pensam sobre nós. Orientamo-nos muito pelas expectativas dos outros, em relação a nós.  

Então, a forma de resolver isto é, mais uma vez, assumires a responsabilidade de compreender que a única pessoa que vai estar contigo, até ao último dos teus dias, és tu. Se reparares, desde o início da idade adulta, já deves ter percebido que a grande maioria das pessoas a quem tentaste agradar ao longo da tua vida, desapareceu. Aconteceu com os relacionamentos, aconteceu com os amigos, aconteceu com os colegas, aconteceu com professores, superiores. Tu tentaste agradar às outras pessoas. Tentaste agradar tanto aos outros e, no fim, por uma razão ou por outra, essas pessoas desapareceram da tua vida, portanto já não têm nenhum significado e tu ficas com os resultados daquilo que fizeste para lhes agradar. Este convite, para que esqueças essa coisa da vergonha, é de assumires as tuas causas, as tuas convicções, as tuas crenças e a tua própria identidade. Que faças com que as expectativas que tens de ti, os objetivos que tu tens para ti, sejam maiores do que aquilo que esperas que os outros pensem de ti. A perceção de ti mesmo tem de ser superior ao conjunto de fatores externos que contribuem para a construção dessa perceção de ti.  

Então, a terceira energia que nos deturpa bastante a capacidade de perceção é a ignorância. A ignorância afeta bastante a nossa capacidade de perceção, porque nós, seres humanos, somos quase como máquinas. 

O nosso cérebro está preparado para poupar energia, portanto, basicamente, a forma que temos de compreender determinada situação é compará-la com um conjunto de situações que já conhecemos. Mas nós deixamos de fora todas aquelas questões que ignoramos. É evidente que isto é mais grave, dependendo da atitude de cada pessoa, mas quando comparamos aquilo que nos está a acontecer com aquilo que conhecemos e tentamos forçar de alguma forma, ou seja, tentamos encaixar ou sistematizar em alguma coisa do que já conhecemos, estamos a deixar de lado tudo aquilo e todas as outras possibilidades que ainda não conhecemos. Isto acaba por ser inconscientemente, acaba por ser uma grande barreira à perceção concreta da realidade, porque nós tentamos encaixar e forçar.  

Relativamente à nossa decisão, há três energias que afetam a nossa capacidade de decidir. A primeira destas energias é uma coisa muito conhecida, que se chama medo.  

Antes de mais, eu gostava de te dizer que o medo é um sentimento perfeitamente natural. Todas as pessoas têm medo. O contrário de não ter medo não é ser corajoso. O contrário de não ter medo, é ser completamente idiota, porque o medo é um sentimento que te traz um alerta para um determinado perigo. Portanto, se percebes um determinado perigo e se sentes medo, significa que o teu corpo e esta emoção do medo, vão gerar em ti uma cadeia de sentimentos, de sensações e até de coisas bastante práticas, que vão ajudar o teu corpo a juntar mais recursos para enfrentar aquela situação. Por exemplo: estás a nadar numa praia - eu sei que em Portugal nós não temos tubarões, mas imagina que estás a nadar numa praia australiana, aquelas paradisíacas. Estás a nadar confortavelmente e estás a passar um bom bocado. Não há nada que te assuste. Mas, entretanto, aparece-te um tubarão. O que é que vais fazer? Vais dizer: “Ah, tubarão, eu não tenho medo”? Automaticamente, o medo decide por ti, há uma série de órgãos no teu corpo que deixam de funcionar, porque toda a energia é canalizada para os músculos, para que tu possas pôr-te a andar dali o mais rapidamente possível. Portanto, o medo é automático. É um processo automático. Agora, tens de compreender que ele pode ser uma ferramenta, se for utilizado com consciência. O problema é que muitas vezes tu decides pelo medo. Tu não deixas de decidir alguma coisa pelo medo, tu decides pelo medo. O medo decide por ti. “Ah, Emanuel, eu gostava de fazer alguma coisa, mas o que não me deixa decidir é o medo de que alguma coisa corra mal.” Não! Não! O medo de que alguma coisa corra mal não te está a deixar não decidir. O medo de que alguma coisa corra mal, está a decidir por ti. O medo não bloqueia uma decisão. O medo é a decisão em si mesmo, ele próprio resolve a questão, porque é uma emoção. É uma cadeia de reações inconscientes e involuntárias, que levam o ser humano a sobreviver, a valorizar mais a ausência de perigo. Portanto, na consciência de que podes enfrentar algum perigo, seja ele real ou imaginário (porque muitas vezes nós bloqueamos perante situações que são simplesmente imaginárias), o medo decide por ti, decide bloquear-te. Esses bloqueios só acontecem porque tu não tens consciência. Porque se tivesses consciência, o medo não te ia paralisar. Uma das razões pelas quais (além desta inconsciência) o medo te paralisa é porque, quando pensamos em determinado objetivo, em determinado passo, pensamos sempre no seu resultado final. Ou seja, quando pensamos numa longa caminhada, nós não pensamos na caminhada, pensamos no resultado final. Se pudéssemos dividir essa grande caminhada em pequenos passos ia ser mais fácil e o resultado final poderia ser uma coisa muito grande. Pode ser realmente assustador porque, de facto, saltar para o perfeito desconhecido é uma tolice. Então, a forma de ultrapassar isto é dividir estas grandes transformações em pequenos passos, para que tu nunca saias de uma zona conhecida; para que possas superar, passo a passo; para que saibas que podes confiar em ti e na tua capacidade de resolver, se alguma coisa te falhar no passo seguinte. E é desta forma, consciente e racional, que tu podes lidar com o medo. O medo bloqueia as decisões, mas, quando usado com consciência, pode trazer-te uma série de energias que tu não poderias captar, de outra forma.  Portanto, utiliza o medo a teu favor! 

A outra energia que nos bloqueia muito é a energia da raiva. 

A raiva é uma consequência de um acumular de frustrações, e as frustrações começam nas expectativas que falham. 

O processo é este: tu geras determinadas expectativas; essas expectativas não se concretizam; desenvolves uma ou uma série de frustrações; entras num processo, consciente ou inconsciente, de raiva contra ti ou contra as outras pessoas à tua volta. Então, sem expectativas não pode haver frustração. Sem frustração não pode haver raiva. Se pudermos desconstruir, vamos eliminar as expectativas. Vamos substituir as expectativas daquilo que tu queres ser capaz, ou de que achas que és capaz, do que querias que te acontecesse ou que achas justo que te acontecesse, daquilo que achas que seria normal ou desejável que fosse o comportamento de determinada pessoa, ou de um determinado conjunto de pessoas, em relação a ti. Se te libertares dessas expectativas, porque, de facto, tu não podes controlar uma série de coisas externas a ti, e te limitares a controlar o que depende de ti, podes eliminar as expectativas e transformar isso num conjunto de objetivos, e esses já dependem de ti. Desta forma, nunca vais desenvolver raiva pelas outras pessoas porque, no fundo, tu és sempre responsável por tudo o que te acontece ou, pelo menos, pela forma como reages ao que te acontece. No limite é sempre isso que faz a diferença. Não aquilo que te acontece, mas a forma como reages a isso.  

Por último, temos a questão da ganânciaQuando achamos que precisamos de mais do que realmente precisamos. Quando, para conseguirmos ter mais do que pensamos que precisamos de ter (e na verdade, se calhar, nem precisamos), contrariamos a nossa própria estrutura de valores. Tornamo-nos verdadeiramente egoístas. Não nos importamos de causar dano a outras pessoas. Passamos por cima dos outros. Muitas vezes, passamos por cima das nossas crenças e dos nossos valores. A ganância afeta muito os processos de decisão. É importante que tenhas consciência disso! 

Para resolveres essa questão da ganância, é importante nunca deixares de estar consciente do que realmente é importante para ti. Quais são as tuas causas? Quais são os teus valores? Qual é, de facto, o teu propósito?  

Eu achei que era importante, nesta altura, teres consciência destes 6 venenos, que afetam a nossa capacidade de perceção e, depois, a nossa capacidade de decisão. Conheceres para que não caias nessas armadilhas, que são tão frequentes durante o nosso dia a dia e que acabam por alterar toda a nossa vida. São completamente involuntários e inconscientes. 

Então, tendo este conhecimento, terás vencido a ignorância. Da próxima vez que te encontrares perante estes paradigmas, já vais saber sistematizá-los de uma forma melhor.