Neste artigo vamos falar sobre o binómio que existe sobre a razão e a emoção. 

Há muito tempo que há uma certa ideia de que ambas as forças são contraditórias e que a razão deve ser superior ou deve superiorizar-se, impor-se à emoção, sob pena de nós nos metermos em comportamentos emotivos e, portanto, que nos possam meter em problemas.  

Então isto leva a uma ideia, de uma certa competição entre as duas forças e eu gostava de te deixar esta pergunta:  

Será que faz sentido as coisas serem racionais ou emocionais?  

Na verdade, ser emocional, na sociedade não é muito aceite. Parece que de alguma maneira temos tendência para preferir a segurança do pensamento, de preferir argumentos mais racionais, mais lógicos, que nos podem conduzir de alguma forma a decisões mais seguras. Por outro lado, já todos nós fomos traídos por decisões emocionais e nem sempre correu muito bem.  

É importante compreender, que a emoção e razão são sistemas cerebrais autónomos. A razão, reside no córtex, na área do processamento lógico, enquanto que a emoção, reside mais no sistema límbico, acaba por ser uma resposta a situações mais específicas e mais pontuais. De alguma forma podemos dizer, que ser racional é estar mais atento à necessidade de médio-longo prazo e ser emocional é o fruto do desejo de uma solução mais imediata perante uma situação mais imediata.  

A emoção é sempre muito mais imediata.  

Em teoria podemos dizer que ambos os sistemas deviam ser autónomos e complementares, mas não é bem assim. Porquê? Porque a forma como o nosso cérebro está organizado - a parte central do nosso cérebro, a amígdala ou o sistema límbico que tem por grande função garantir a sobrevivência, a nossa sobrevivência, a sobrevivência do nosso corpo, ela tem prioridade. 

Então, perante a experiência emocional, o que acontece é que alguns órgãos - naqueles processos automáticos que acontecem na experiência emocional, que são desencadeados no nosso corpo - alguns órgãos e algumas partes do nosso corpo, são simplesmente desligados. O nosso corpo não canaliza energia para esses órgãos, porque pensa que precisa dessa energia disponível para fazer face à situação que está a despoletar o impulso emocional. 

Então, este mecanismo pelo qual a amígdala - ou a parte nuclear do nosso cérebro, o sistema límbico ou o sistema reptiliano - acaba por capturar outras funções do corpo, é conhecido nas neurociências como o sequestro da amígdala. Um conceito que foi primeiramente introduzido pelo professor português António Damásio - que é um neurocientista, internacionalmente conhecido, que reside atualmente nos Estados Unidos. 

A pesquisa científica demonstrou que, perante determinados estímulos que provocam uma cadeia de emoções, ou que provocam uma reação emocional, de facto, determinadas áreas do nosso corpo e sobretudo do nosso cérebro, acabam por ser desligadas. 

Quando a emoção surge, parece que de alguma forma, as outras áreas do nosso cérebro, que são responsáveis pela razão, são simplesmente desligadas. Isto justifica uma frase que o célebre filósofo inglês David Hume,, escreveu no século XIX que é ”A razão é escrava das paixões”.   

Então, é por isto, por causa deste sequestro da amígdala, que nós temos a tendência para decidir emocionalmente. 

E o que acontece, é que depois - isto também já é bastante conhecido - decidimos emocionalmente e depois justificamos racionalmente as nossas decisões, que são muitas vezes emocionais. É uma forma inconsciente de promover a cooperação entre ambas as energias.  

O que acontece, é que como nós normalmente desvalorizamos as emoções que têm este papel tão forte, no momento de tomar uma decisão, nós simplesmente - não estando habituados a lidar com estas emoções, porque estamos habituados a ignorá-las - nós vamos permitir que elas tomem conta do nosso pensamento, do nosso raciocínio. Neste contexto, decidimos decidir em função das nossas emoções e agir em função das nossas emoções. As nossas escolhas são muitas vezes, fruto das nossas emoções e dos nossos desejos mais profundos e por isso às vezes é tão difícil nós conseguirmos explicá-las.  

Se nós não tivermos consciência destes processos internos, que nos levam à tomada de decisões, não é possível que nós possamos tomar decisões conscientes. Se nós não temos consciência do processo, também não temos naturalmente consciência do resultado. Isto vai-nos levar automaticamente a decisões mais inconscientes, que nós nem percebemos bem como é que as fizemos, baseadas sobretudo no desejo, sobretudo na emoção.  

Ambas as forças, ambas as energias, que parecem aparentemente contraditórias e que nós estamos habituados a ver como contraditórias, são na verdade, duas faces da mesma moeda, são complementares entre si. O melhor resultado vai surgir quando nós podemos integrar as duas energias. 

Um exemplo para ilustrar isto, que eu encontrei, e que e de facto muito, muito bom, que eu gostava de partilhar contigo.  

É o exemplo de uma flecha. Imagina que tu estás a atirar uma flecha, então tu fazes uma determinada pontaria, que é importante, para de facto, traçar a rota, traçar o sentido em que a flecha segue, mas depois a energia que aplicamos é a energia da emoção. Ou seja, aqui a razão estabelece a direção e a emoção estabelece a potência. 

 

Se pudermos utilizar simultaneamente a razão e a emoção, não só vais estabelecer a direção certa, como vais garantir que aplicamos o máximo da tua energia numa determinada ação e naturalmente o resultado também vai ser compensatório em função dessa energia.  

Em resumo, a razão e a emoção não devem competir entre si, mas devem colaborar entre si. Assim permite-nos estabelecer decisões mais acertadas e estabelecer ações mais determinadas, com muito mais energia. Ter consciência, mais uma vez, ter consciência de como é que estas forças atuam, como é que estas dinâmicas funcionam internamente - a forma como elas interagem, como estas duas energias interagem - é a chave para começar a tomar decisões mais conscientes, mais  equilibradas para podermos libertar toda a intensidade de ação que necessitamos para atingir melhores resultados.