A homeostase tem a ver com a satisfação das necessidades do corpo, com as suas características de auto-funcionamento. Esta máquina funciona sem a nossa intervenção.  Nós respiramos sem pensar nisso, evitamos a dor sem pensar nisso, portanto, grande parte do nosso sistema é autorregulado. É por isso que passamos tanto tempo em piloto automático, porque podemos confiar nesta máquina homeostática que, de facto, controla o nosso organismo e o leva a sobreviver, sem qualquer tipo de consciência ou de decisão. E podemos confiar que tudo estará bem, mas este automatismo levanta algumas questões.  

Antes de mais, vamos tentar perceber os níveis de regulação homeostática, ou seja, como é que o organismo faz para controlar estes níveis homeostáticos? 

O primeiro nível que vai surgir, mesmo à superfície, é o nível dos sentimentos. No fundo, tem a ver com a expressão mental de todos os outros níveis de regulação.  

O segundo nível, mais para baixo, são as chamadas emoções sociais que são, por exemplo: a simpatia, a compaixão, o embaraço, a vergonha, a culpa, o orgulho, o ciúme, a inveja, a gratidão, a admiração, o espanto, a indignação, a vergonha. Estamos sempre a ver estas manifestações, muito à flor da pele, no comportamento das pessoas.

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Depois, mais profundas, as emoções primárias: o medo, a alegria, a raiva, a tristeza, a aversão e a surpresa. São as 6 emoções mais universalmente aceites como primárias. É engraçado, porque elas também estão associadas a expressões faciais e a expressões comportamentais muito específicas e universais, que são iguais em todas as pessoas. Mais à frente, vais descobrir como perceber estas emoções nas outras pessoas.  

Há ainda as emoções de fundo, de que quase nunca ninguém fala: falta de cansaço, ou pelo contrário, de um determinado entusiasmo. Podem manifestar-se, também, em quadros de ansiedade generalizada, que são as emoções de fundo mais prementes.  

Depois, há este quadro das pulsões e das motivações, os apetites ou desejos. Estão relacionados com as tais funções homeostáticas. Têm a ver com a fome, a sede, a curiosidade — nós homens, aliás, como todos os primatas, somos seres muito curiosos, o que nos leva a estes comportamentos exploratórios -, a parte lúdica — que é a parte da exploração da diversão e da alegria, que também tem uma função sexual, como vamos perceber um pouco mais à frente.  

Ainda mais profundamente, estão os comportamentos ligados à dor e ao prazer. Claro que nós tentamos evitar a dor e buscar o prazer, ou seja, tentamos adiar e evitar a dor o mais possível, para encontrar o máximo de prazer. Isto inclui as reações de aproximação ou de afastamento do organismo, do corpo, em relação a um objeto ou objetos, ou a situações específicas, que nos causem dor ou prazer. É a velha questão filosófica do apego e da aversão que, no fundo, é a reatividade que nos faz afastar ou aproximar de alguma coisa. Um campo energético das coisas mais positivas, as coisas mais negativas, fazendo lembrar também o ying e yang, fazendo-nos lembrar que em tudo na vida há esta questão da dualidade, no fundo, de energias. Energia positiva ou negativa; mais masculina ou feminina; mais dor, mais prazer.  

Depois, há as respostas imunitárias, já num nível, muito, muito, muito inconsciente e involuntário - o nosso corpo é completamente automático nestas coisas, nós não temos nenhuma perceção nem nenhum controlo. No fundo, é o nosso sistema imunitário que nos ajuda a defender o organismo de vírus, bactérias, parasitas, que podem invadir tanto a partir do exterior quanto do interior do corpo, ou seja,  se em determinadas zonas do corpo eles se deslocarem, ao invés de se manter inertes, o nosso organismo tem uma resposta imunitária, normalmente muito eficaz para os milhares de parasitas, vírus e bactérias, que nos atacam diariamente. 

 Seguem-se os reflexos básicos, que incluem o reflexo de alarme ou susto quando reagimos a algum ruído que desperta a nossa atenção para o perigo. Então esta questão tem a ver com a sobrevivência.  

Ainda mais, mais profundamente, está a regulação metabólica, que inclui todos os processos químicos e mecânicos que governam desde o ritmo cardíaco, a pressão arterial e o funcionamento do nosso corpo.

O nosso corpo é uma máquina que funciona 24 horas por dia, às vezes, durante mais de 100 anos. E, de facto, grande parte dos processos que conduzem esta vida são completamente automáticos, estão pré-programados, portanto, não têm nenhuma intervenção. 

Então, se observarmos de baixo para cima, vamos ver que, de facto, há um nível de respostas metabólicas, os reflexos básicos, as respostas imunitárias, que são completamente inconscientes. As questões da dor ou prazer. Às vezes reagimos automaticamente, mas aqui já começamos a ter alguma consciência e controlo. Em níveis muito profundos da Meditação, por exemplo, conseguimos ter algum controlo, até mesmo das respostas imunitárias, mas sobretudo desta dor e prazer. Aqui encontram-se, também, as pulsões e motivações, os apetites e os desejos, as emoções de fundo - aliás, todo esse campo das emoções que vamos estudar mais à frente -, e os sentimentos que, no fundo, são o processamento mental destas emoções. 

Então, podemos constatar uma certa graduação em termos de camadas de comportamentos, que o organiza, normalmente automáticos, que se destinam a promover a nossa sobrevivência e o nosso bem-estar. Como te deves ter dado conta, a grande maioria deles, nem sequer percebemos no dia-a-dia, mas, de facto, sem respirar, sem o coração bater, sem o corpo funcionar, nós não sobreviveríamos, e estes são mecanismos completamente automáticos e inconscientes. Então, é preciso trazer estas questões para o nível da consciência, para que possamos partir para algumas considerações e definições mais concretas.  

Primeiro, dizer que aquilo que vamos seguir neste capítulo tem muito a ver com o trabalho do professor António Damásio - que é Português, mas trabalha nos Estados Unidos. É um neurocientista muito reconhecido e respeitado a nível internacional. Aborda muito desta questão das emoções, sob o ponto de vista bioquímico e também biomecânico, porque, de facto, as neurociências têm feito um trabalho extraordinário e ele próprio tem liderado um trabalho extraordinário, na descoberta da importância que as emoções têm na nossa vida. Tem um livro muito conhecido, que é “O Erro de Descartes”, um livro que eu recomendo, muito interessante e, aliás, tem um início assim até um pouco arrepiante. É um livro muito interessante que nos fala precisamente deste erro de Descartes. Descartes dizia “Penso, logo existo”. O Damásio, o que vem dizer é que, antes de pensar, nós temos emoções, antes do pensamento e antes desses pensamentos estão as emoções, e elas influenciam também os nossos pensamentos que, por sua vez, são causadores das emoções. Mas, de facto, estas funções mais básicas da existência não têm a ver com o pensamento, mas sim com as emoções. 

Para definirmos emoções, temos aqui algumas frases retiradas do trabalho do Professor António Damásio. Para já: “conjuntos de complexas respostas químicas e neurais, que formam um padrão, cuja finalidade é manter o organismo em posição de sobrevivência e bem-estar e, para isso, desempenha um papel regulador.” Ou seja, o papel das emoções, o papel primário das emoções é, de facto, defender a nossa vida e o nosso bem-estar. Se estás mais atento ao que tem sido o meu trabalho, isto tem muito a ver com o ego, não é? 

Ou seja, as emoções, a educação emocional está relacionada com a emoção do ego, porque, de facto, o centro das emoções, e aquilo que chamamos de ego, não será muito diferente, no fundo.  

Mas, na prática, como é que funcionam as emoções? Então, perante um determinado estímulo, há determinadas descargas químicas que provocam reações neurais, que formam um padrão, ou seja, acontecem todas numa determinada sequência, e todas essas emoções têm uma finalidade específica. Mas, no geral, a grande função de todas as emoções é manter o organismo numa posição em que ele seja capaz de sobreviver, garantir a sobrevivência e o bem-estar do organismo. 

Por isso é que as emoções têm um papel muito importante na nossa vida, em todos os aspetos.  

“Os mecanismos básicos das emoções são respostas inatas (que nascem com o indivíduo), determinadas biologicamente, embora a sua expressão e o seu significado possam ser modificados culturalmente”. Então, grande parte destas respostas emocionais, estes processos automáticos que se desencadeiam perante determinados estímulos são completamente automáticos, eles nascem connosco, mas o estímulo pode ser alterado. Mais à frente vamos estudar um pouco melhor isto.  

“Certas respostas estão inscritas no cérebro pela evolução, outras são aprendidas na experiência da vida”. Ou seja, algumas destas emoções são inatas, já vimos programados pela evolução, pelos nossos antepassados - está no nosso ADN, ou DNA, como queiram. Esta informação de como é que se reage a determinadas situações, e outras, são comportamentos aprendidos, que têm a ver com a experiência de vida. e perante um determinado estímulo eu reagi de determinada forma e a resposta foi de dor, quer dizer que eu não posso fazer isso. Se perante um determinado estímulo eu tive um determinado comportamento ou reação e tive prazer, então sim! O objetivo é sempre ter prazer. Vamos aprendendo, pela experiência da vida, determinadas emoções e comportamentos. 

“As respostas emocionais modificam temporariamente quer o estado do corpo, quer o estado das estruturas cerebrais que cartografam o corpo e suportam o pensamento”. Já sabíamos, não é? Se eu estiver mais triste, por exemplo, vou-me sentir mais cansado, o meu estado físico, o estado do meu corpo, vai alterar-se. Também já sabemos que estas emoções têm uma influência direta nos pensamentos e na forma como penso. Não só na forma como interpretamos as situações, mas também, e sobretudo, na forma como as processamos.  

Há um mecanismo muito interessante, designado de sequestro da amígdala. Perante uma situação em que o nosso corpo se vê numa questão de sobrevivência, ou de manutenção do seu bem-estar - no fundo, a supressão das suas necessidades -, há uma parte do nosso cérebro, a amígdala — que é responsável por este processamento -, que toma conta de todos os recursos do nosso cérebro e literalmente desliga muitas das áreas do córtex cerebral, que são as responsáveis pelo processamento das ideias e dos pensamentos. Então, literalmente, algumas partes do nosso cérebro podem ser simplesmente desligadas, quando estamos a experimentar uma emoção forte. É normal e justifica a impulsividade que muitos de nós temos, que depois se pode transformar através de alguma educação específica.  

Então, as emoções, como referi, são desencadeadas a partir de estímulos emocionais e o que Damásio diz é que: “Uma emoção é a resposta do nosso corpo ao que se passa à sua volta, através de estímulos que ativam os nossos sentidos e o nosso pensamento.” Ou seja, qualquer estímulo à nossa volta, seja das sensações, qualquer estímulo ou informação que venha dos sentidos - da visão, da audição, do olfato, do tato -, pode desencadear uma emoção, pode servir de estímulo, da mesma forma que os pensamentos também podem servir de estímulo às emoções, podem ser o que chamamos de gatilhos. Ou seja, os pontos de ignição para um determinado conjunto de reações são, as emoções. Podem ser internos ou externos, podem ser coisas que vemos, ouvimos, cheiramos, pensamos... São os gatilhos emocionais.  

Esta resposta pode ser positiva, se o estímulo for agradável, ou negativa, se o estímulo for desagradável, nomeadamente, recordando o que vimos sobre a questão da dor e do prazer. Nós temos a tendência a rejeitar tudo o que não gostamos e a tentarmos aproximar-nos do que nos dá prazer. Isto é completamente automático e quase sempre inconsciente.