Neste artigo vamos falar sobre desejo, necessidade e vontade. Três conceitos fundamentais para quem quer organizar a sua mente interna, no sentido de promover a felicidade e o seu bem-estar.  

Já percebemos que o nosso bem-estar e a nossa felicidade dependem da nossa satisfação com a vida e que a nossa satisfação com a vida vai depender do suprimento destes sentimentos: do desejo, da necessidade e da vontade. O problema é que muitas vezes nós nem sequer os conseguimos distinguir, e não os conseguimos distinguir porque, na verdade, nós nem sequer conseguimos definir exatamente o que é cada um deles e perceber qual é o papel que cada um deles ocupa na nossa psique e na nossa forma de estar.  

Depois disto é preciso conhecer as diferenças conceptuais, porque elas podem ajudar-nos a estruturar estes conceitos de uma forma hierárquica, para que haja alguma ordem interna no sentido de podermos promover, de alguma forma, a congruência. E é esta congruência interna, que vai favorecer as condições para a satisfação e que nos vai ajudar a fazer escolhas mais conscientes no nosso dia-a-dia.  

Uma das maiores fontes de sofrimento é a confusão que existe entre as necessidades não satisfeitas e desejos não realizados. Estas coisas não realizadas, e a confusão que existe entre elas causam-nos uma sensação de vazio e de sofrimento, muitas vezes, verdadeiramente insuportável. 

Então, antes demais é preciso começar pelos conceitos. O que é que é cada uma das coisas?  

O desejo é o impulso vital; é a alegria que nos faz viver.  

A necessidade é uma urgência; é aquilo que nós precisamos constantemente e que tem de ser resolvido constantemente.  

A vontade é uma carência transitória; é a inclinação em direção a algo num certo momento.  

Ou seja, num certo momento a vontade é a tua escolha consciente ou inconsciente de te orientares em relação a uma determinada necessidade. A vontade é a inclinação em direcção a algo num certo momento, ou seja, num certo momento tu decides transformar o desejo numa necessidade para que ele seja concretizado.  

E também é importante que tu compreendas que o desejo não é um estado, não é um lugar onde se chegue. O desejo é o horizonte, aquilo que nos dá o Norte, mas que nunca se alcança. Nunca se vai alcançar plenamente o desejo, até por causa do mecanismo próprio do desejo.

Quando nós alcançamos alguma coisa, nós começamos a desejar outra. Portanto, os desejos não são para se alcançar, são para estabelecer um horizonte. À medida que tu vais caminhando, o horizonte vai-se abrindo, e vai-se abrindo precisamente com o sol desse horizonte, e o sol que nos dá o Norte à nossa vida é o desejo. É este impulso vital para avançar que nós caminhamos em direção a alguma coisa que queremos alcançar.  

“O horizonte não existe para que se chegue até ele, e sim para não me impedir de caminhar”. E é isto, à medida que tu vais caminhando o horizonte vai-se redefinindo e reabrindo. Tu não precisas de alcançar o horizonte, tu nunca vais alcançá-lo, simplesmente porque à medida que tu vais caminhando o horizonte vai-se refazendo, mas não há problema! Porque pondo no horizonte esta estrelinha do teu desejo que é o que tu queres alcançar, tu sabes para onde é que tens que caminhar.  

Então, o desejo é uma falta também. O desejo é algo que te faz falta pois ninguém deseja alguma coisa que tem. Todos nós desejamos alguma coisa que não temos, que não há, alguma coisa que é escassa na nossa vida, por isso é que nós a desejamos. Pode ser também um sonho. Eu creio que era o Freud que dizia: “os nossos sonhos são desejos que estão por realizar”. E pode ser também a grande meta. 

Então é isto, é pôr uma estrelinha no teu horizonte e caminhar em direção a ela. E isto é que é o teu desejo. Assume claramente quais são os teus desejos, não há nenhum problema.  

Então o Matthieu Ricard, que dizem que é o homem mais feliz do mundo, tem aqui uma expressão também muito engraçada, que é: “O desejo tanto pode nutrir a nossa existência quanto envenená-la”. O que é que isto quer dizer?  

Como nós vamos ver a seguir, há uma série de desejos diferentes. Quando nós cedemos aos desejos mais básicos, mais instintivos, como o desejo da reprodução, da alimentação e etc, nós sucumbimos à possibilidade de evoluir noutros níveis. Para a frente vais compreender melhor.  

Então, o desejo pode transformar-se nestas duas coisas, ou seja, vai nutrir a nossa existência se tu o vires como uma estrelinha, como algo que tu queres alcançar, ou então vai envenenar se tu te viciares de facto na concretização dos pequenos prazeres que o desejo te impulsiona a ter.  

E, entretanto, a necessidade é alguma coisa que é imprescindível para a tua vida e é independente da tua vontade. A satisfação das necessidades é obrigatória, e aliás ela difere do desejo por causa disto. É mesmo necessário que tu possas então suprimir as necessidades porque senão não consegues simplesmente viver e não consegues simplesmente seguir em frente. Então, a satisfação das necessidades é obrigatória.  

Já a vontade é um impulso biológico para transformar o desejo em necessidade e então a satisfazer de imediato. Ou seja, tu tens um desejo que está muito associado a um determinado prazer e transformá-lo numa necessidade instantânea para que a satisfaças de imediato, ou seja, cedes em relação a esse pequeno prazer.  

Quando nós falamos de força de vontade, também falamos desta vontade, ou seja, quando nós não temos noção daquilo que queremos alcançar, qual é o prazer que queremos alcançar, nós não conseguimos simplesmente compreender qual é o desejo que transformamos em necessidade. Por isso, a presença das duas coisas é obrigatória. É preciso que tu tenhas desejo de alguma coisa que tu queres alcançar e que o transformes em necessidade. Quanto mais nítido e forte for o teu desejo, e quanto mais forte for a tua fome por alcançar esse desejo, mais forte vai ser a tua vontade. Portanto as duas coisas têm uma relação direta: quanto mais forte o teu desejo, mais forte a tua vontade.  

 Então, voltamos à questão das necessidades para relembrar a pirâmide de Maslow.

O que Maslow dizia é que nós temos estes 5 níveis de necessidades, sendo que só nos preocupamos com o nível superior quando temos o nível inferior resolvido. 

Ou seja, começamos pelas necessidades fisiológicas que são sobretudo a alimentação, o sono, o repouso, o abrigo, o desejo sexual e outras coisas. No fundo, se reparares isto aqui tem muito a ver com a sobrevivência e com reprodução, portanto são os instintos mais primários do ser humano. Depois claro, que para esta sobrevivência também é preciso garantir a segurança física, a segurança do emprego, a segurança da família e a segurança em outros níveis. 

Depois vêm as necessidades sociais, e estas necessidades são necessidades de amizade, de afeto, de amor e etc. De seguida virão as necessidades de estima, a autoconfiança, a autoestima, a aprovação dos outros, o respeito das outras pessoas, este tal status, etc. E finalmente virá a auto-realização que está muito ligada à ideia do propósito, da realização do próprio potencial, do desenvolvimento contínuo e da exploração das próprias capacidades do indivíduo. Portanto, estas basicamente são as necessidades de Maslow.  

Então, eu tenho uma proposta para ti, que é associarmos estas necessidades e estes desejos, uma vez que os desejos podem antecipar as necessidades, com as diversas funções da psique.

Então se tu reparares, o nível fisiológico e de segurança são sobretudo necessidades mais primárias, nomeadamente necessidades mais físicas. São as necessidades de segurança, de tranquilidade, de estabilidade, de sobrevivência, sobretudo, aí inclui-se a questão da alimentação, do abrigo, do descanso, a sexualidade, a reprodução, etc.  

O nível das necessidades sociais são as necessidades de nível emocional, estão ligadas à função da psique que é emocional, que é ser aceite, ser amado, ser desejado, a ligação aos outros, o afeto, a pertença e a proteção do grupo. Aqui também esta questão tão importante que é a proteção do grupo, que também está ligada então à ideia da sobrevivência. Nós seres humanos hoje podemos sobreviver sem a proteção dos grupos, mas, se calhar, na nossa memória biológica ainda não está gravada essa informação. Nós ainda estamos programamos para viver em grupo porque só assim é que poderíamos defendermo-nos uns aos outros e mutuamente das ameaças.  

Então, quando subimos, subimos para as necessidades mentais, as necessidades de desafio, as questões das competências, a independência, a liberdade e autodeterminação, portanto também conceitos fundamentais para o ser humano. Na autodeterminação vamos incluir a autoestima, a autoconfiança e a auto motivação. Isto aqui muito ligado então à função mental da psique.  

E a última das necessidades que o Maslow falava, a autorrealização tem mais a ver com a função espiritual da psique. Aqui procuramos relevância, uma ligação ao universo, a construção de um legado e a ideia da transcendência na sequência de o ser humano lidar muito mal com a questão da finitude da vida. Nós somos o único animal na face da terra que tem consciência de que um dia vai morrer e nós lidamos mal com a questão da finitude da vida. Então, esta espiritualidade está muito ligada também a esta ideia da transcendência, ou seja, que a vida possa transcender-se a si própria, como a ideia da reencarnação em algumas sociedades e culturas ou a ideia da ressurreição na tradição judaico-cristã. E é também a questão filosófica da imortalidade simbólica, através da qual o indivíduo permanece pela sua obra, pelo seu trabalho, ele permanece na vida, permanece vivo e permanece útil a outras pessoas após a sua morte, ou seja, basicamente, além da sua morte física, a sua essência vai continuar a ecoar. É o caso, por exemplo, de alguns escritores, de alguns autores, de alguns poetas e de alguns profetas, que conquistaram a imortalidade simbólica. Ainda hoje nós continuamos a lembrarmo-nos deles e, portanto, basicamente a vida deles transcendeu-se a si próprios. 

Então, esta ideia da auto-realização tem muito a ver com estes aspetos que estão claramente ligados à função espiritual da nossa psique. A função da relevância, de ser importante para outras pessoas, de uma ligação à totalidade e à compreensão do mundo, e a ideia de ultrapassar esta questão da finitude da vida então através dessa transcendência, seja pela reencarnação, seja pela ressurreição, seja então pela imortalidade simbólica.  

Isto é uma proposta de abordagem que eu te faço que nos pode ajudar, então, a ser mais objetivos em relação àquilo que nós queremos e em relação àquilo que nós desejamos. Por isso, mais à frente eu vou-te pedir um pequeno exercício, mas antes de te falar do exercício, eu gostava de te apresentar este pensamento do Osho sobre o desejo e necessidade.  

“Os desejos são muitos, as necessidades são poucas.  

As necessidades podem ser satisfeitas; os desejos nunca. 

O desejo é uma necessidade que enlouqueceu.  

É impossível satisfazê-lo.  

Quanto mais você tentar satisfazê-lo, mais ele pedirá.  

As necessidades são muito poucas e são belas.  

Os desejos são feios e transformam os seres humanos em monstros; eles criam loucos…  

Assim que começares a aprender a escolher a serenidade,  

um pequeno quarto será suficiente,  

uma pequena quantidade de comida será suficiente,  

poucas roupas serão suficientes, uma pessoa amada será suficiente”.  

É brilhante este pensamento de Osho que nos faz questionar entre aquilo que realmente nós necessitamos e aquilo que nós desejamos, e que nos alerta então para este perigo dos desejos que podem ser necessidades enlouquecidas.  

 Então o desafio que te proponho é que tu percebas:  

1) Quais são os teus desejos?  

2) Quais são as tuas necessidades?  

3) Quais são os teus desejos que tu tens vontade de transformar em necessidades?  

Então e como é que tu vais fazer isto?  

Através do preenchimento desta pequena tabela:

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Desejos​ 

Necessidades​ 

Físicos​ 

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​ 

Emocionais​ 

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​ 

Mentais​ 

​ 

​ 

Espirituais​ 

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Compreender quais são os teus desejos ao nível físico, ao nível emocional, ao nível mental e ao nível espiritual. Bem como, quais são as tuas necessidades ao nível físico, ao nível emocional, ao nível mental e ao nível espiritual. Vamos compreender o que é que é importante para ti.  

Nesta fase tudo é legítimo. Os teus desejos e as tuas necessidades são tuas, são a tua percepção da vida. É importante que tu tenhas consciência de quais são os teus desejos e quais são as tuas necessidades, e depois que tu consigas perceber quais são desses desejos é que tu queres transformar em necessidades. Ou seja, que desejos desses é que tu queres realmente concretizá-los porque são realmente importantes para ti.