Então, começamos pela via oriental que depois inspira muito o Budismo e as práticas de meditação budistas, mas também hinduístas. Então, eles orientam a meditação em 4 estádios, sobretudo nas escolas de meditação contemplativas, e o último dos estádios é precisamente esta equanimidade. Ou seja, além de muitas outras coisas, a meditação é também uma via para atingir este estádio de tranquilidade e este estádio de harmonia. 

      1º estádio: Relaxamento 

O primeiro dos estádios, é o estádio do relaxamento. Este é o estado em que o pensamento ou a atenção se reúnem com o corpo. Se tu reparares a tua atenção e o teu pensamento estão normalmente muito longe do teu corpo, quer em termos de espaço quer em termos de tempo. Ou seja, o teu pensamento dificilmente está concentrado no aqui e no agora. O teu pensamento está focado em coisas que ocorreram ou que poderão ocorrer noutro espaço e noutro momento que não o aqui e agora. Então, no primeiro estádio de relaxamento o que queremos é trazer a atenção e, se calhar, uma parte do pensamento para o momento presente, para que ele possa reunir-se com o corpo e para que possas de facto relaxar. E isto pode fazer-se através de alguns exercícios muito práticos, às vezes basta respirar e estar atento ao momento presente, isto já nos provoca automaticamente uma sensação de relaxamento. 

      2º estádio: Concentração  

O segundo estádio é o estádio da concentração. Este é um estádio em que tu começas a trabalhar a tua mente para estar focada. A nossa mente não está habituada a estar focada e concentrada num único assunto, num único momento. Ela, na verdade, apresenta dois tipos de padrão de comportamento que são típicos: o padrão de macaco e o padrão de vaca. Ou rumina os pensamentos como uma vaca, ou salta de galho em galho como os macacos, e às vezes alterna até entre um padrão e outro. É muito difícil concentrarmos a nossa mente e sobretudo a atenção num determinado ponto. Então neste estádio o que vamos trabalhar é, sobretudo, o depósito da atenção sobre as sensações num determinado ponto da nossa respiração. Isto porque a respiração é algo físico, permanente, constante, está sempre a acontecer, é portátil, está sempre connosco em todo lado, portanto nós podemos sempre observar a respiração. Contudo, não vai ser fácil porque a nossa atenção vai ser raptada por um pensamento parasita que a vai levar para longe, mas nós vamos fazê-la voltar e vamos voltando e recondicionando então a nossa mente até que ela possa ficar focada naquilo que é o momento presente, ou seja, possa permanecer reunificada com o nosso corpo. Este estádio da concentração vai-nos abrir a porta para nós compreendermos também outras sensações que existem no nosso corpo, ou seja, não só naquele ponto que designamos inicialmente como uma âncora, mas também ao longo do nosso corpo. Adicionalmente, vai ajudar-nos a compreender uma relação entre os nossos pensamentos e sensações que se geram no nosso corpo.

 

      3º estádio: Atenção Plena  

Também é interessante compreender, na fase da atenção plena, as dinâmicas entre o pensamento e as sensações, bem como compreender todo o universo dos sentimentos e das emoções que se cria. Portanto, vamos conseguir ter uma visão panorâmica de tudo aquilo que se passa no nosso interior. Num outro momento da atenção plena vamos também recolher informação dos nossos sentidos, ou seja, de tudo aquilo que está à nossa volta, de tudo aquilo que compõe então o momento em que nós estamos. Esta atenção plena é aquilo que chamamos de mindfulness. Então é a vida com atenção ao momento presente, o que não é fácil, mas é possível! É uma questão de treino e de hábito.

      4º estádio: Equanimidade 

Depois deste estádio da atenção plena estar consolidado e depois de alguma prática, em algum momento tu vais como que entrar neste estádio de equanimidade. É mais ou menos natural, acaba por ser uma consequência do trabalho bem feito no estádio da atenção plena. 

Então, quando tu chegas a este estádio, tu começas a não reagir às coisas que acontecem à tua volta, pois a tua mente está demasiado concentrada naquilo que é o teu universo interior e tu compreendes que é esse universo interior que é fundamental dominar em primeira instância. Então, tu não reages, e esta não reação é que é a equanimidade. Mas para tu conseguires, de facto, alcançar a equanimidade, e isto até pode ser uma via mais fácil, é pela compreensão de que é que reage a tua mente e o que é que acontece quando a tua mente reage. Repara, nós reagimos a muitas coisas, mas os grandes mestres de meditação ensinam-nos que nós reagimos sobretudo ao apego e à aversão. Portanto é esta dualidade entre aquilo que nós não queremos deixar ir e aquilo que nós não queremos que venha até nós, as coisas menos agradáveis que nós não queremos que venham, que nos faz ter uma mente reativa. E então nós podemos não reagir a estas coisas. E como é que nós podemos reagir a isto?