Vamos falar sobre funções executivas do nosso cérebro.  

Será que, afinal, temos uns botões onde podemos carregar, para ativar determinadas funções do nosso cérebro? É isso que vamos tentar perceber, neste artigo. 

Funções executivas foi um termo encontrado por uma psicóloga norte-americana, que se chama Adele Diamond. Adele é uma das grandes impulsionadoras do conceito da Psicologia Positiva e encontrou determinadas funções cerebrais, a que chamou Funções Executivas do nosso cérebro. Vamos explorar algumas delas, para conseguires compreender quais são, porque é que fazem a diferença e porque é que te deves preocupar com a utilização dessas funções, para a construção da tua felicidade e do teu destino. 

Importa referir, antes de mais, que as funções executivas são séries de processos mentais desencadeados automaticamente, ou então, baseados na intuição ou no instinto. 

Então, o que é que é isto das funções executivas? 

O que se diz é que as funções executivas são uma série de processos mentais desencadeados automaticamente, ou baseados na intuição ou instinto. Portanto, basicamente, são processos mentais nos quais não tens nenhum tipo de interferência, sobre os quais não tens nenhum tipo de controlo. O que não é muito boa ideia, não é? Nós precisamos ter controlo sobre estes processos mentais, até porque, como vamos ver, eles são absolutamente decisivos, quer para o nosso comportamento, quer para a construção dos nossos resultados.  

As 3 grandes funções executivas do nosso cérebro são: o controlo inibitório, a memória de trabalho e a flexibilidade cognitiva. Estas são as funções executivas principais. 

As de ordem superior, classificadas como funções executivas de ordem superior, são: resolução de problemas, orientação para o raciocínio e planeamento. Estas são funções absolutamente estratégicas, se queres construir uma vida realizada com plenitude e com sucesso. Viver na plenitude das tuas potencialidades.  

O controlo inibitório diz respeito a resistir a uma forte inclinação para fazer alguma coisa, em vez daquilo que é preciso ser feito. Tem muito a ver com a procrastinação. Trocar uma tarefa por outra tarefa mais leve ou que tenha um prazer mais imediato. É a capacidade de nos controlarmos e fazermos aquilo que deve ser feito, quando tem que ser feito. O autocontrolo diz respeito a resistir a tentações, não agir impulsivamente e pensar antes de agir. Quantas vezes nós não fazemos isto? Agimos antes de pensar.  

Alguns exemplos de autocontrolo: 

- Esperar pela tua vez; levantar a mão; 

- Não roubar coisas;  

- Não fazer chichi nas calças; 

- Resistir a magoar alguém, só porque essa pessoa te magoou;  

- Esperar antes de agir; 

- Não deixar escapar a primeira coisa que te vem à cabeça;  

- Esperar para arrefecer o momento, não reagir no calor dos momentos;  

- Esperar pela conclusão sem precipitações. 

Também há muitas pessoas que tentam avançar logo para os finalmentes, sem explorar todas as potencialidades dos processos e, muitas vezes, deixando coisas a meio. É classicamente aquilo que acontece quando as pessoas têm muita iniciativa e pouca acabativa. Acabam por precipitar as conclusões dos assuntos que não conseguem concluir.   

Outro aspeto é a disciplina e perseverança, ser capaz de resistir a todas as tentações para abandonar o que estamos a fazer, que não é tão agradável assim, e não terminar a tarefa, não terminar aquilo que foi iniciado. É preciso educarmos a nossa mente para esta disciplina, para esta perseverança e, portanto, é preciso ativar esta função executiva do nosso cérebro. 

Ainda na disciplina e perseverança é preciso saber continuar com a tarefa, apesar de ser aborrecida, de ser difícil começar; apesar dos contratempos, das dificuldades que surgem; apesar de ter outras coisas para fazer, eventualmente mais divertidas e muito mais apelativas. Quando treinares esta função, este músculo da autodisciplina e da perseverança, vais ver que vai ser muito mais fácil para ti conseguir terminar aquilo que começas. Mesmo que sejam tarefas aborrecidas, de ser difícil começar. Sem dúvida, muito importante, se calhar até um bocadinho inquietante. 

Só para teres uma ideia, as evidências, as provas científicas, demonstram que a disciplina é responsável por uma variação das notas finais duas vezes maior do que o QI. Ou seja, as pessoas que têm melhores notas não são necessariamente mais inteligentes. Normalmente significa que elas têm mais disciplina e mais perseverança. É uma força e uma função que faz todo o sentido controlarmos para, de facto, conseguirmos ter melhores resultados. 

A memória de trabalho e o controlo inibitório são responsáveis pelos resultados académicos, independentemente de outros fatores. Não tem nada a ver com QI, não tem nada a ver com a idade, não tem nada a ver com o ambiente social, não tem nada a ver com mais nada.  

A memória de trabalho e o controlo inibitório são absolutamente fundamentais, para que tu possas ter bons resultados, académicos ou em qualquer outra área da tua vida. Este estudo foi sobre o meio académico, mas tenho a certeza que se verificaria em todos os setores e fases da nossa vida. A memória de trabalho e o controlo inibitório, esta capacidade de ter autodisciplina, de ter perseverança, são responsáveis pelo teu sucesso. Não há dúvidas absolutamente nenhumas quanto a isso.  

Por outro lado, para fomentar a tua memória de trabalho podes associar histórias. A memória de trabalho é a memória de curto prazo, a que chamamos memória transitória. A memória com que tu contas só durante algum tempo.  

Esta memória de trabalho que nos ajuda - chama-se memória de trabalho porque nos ajuda a efetuar tarefas e a desenvolver as nossas atividades -, pode ser potenciada, se nós associarmos histórias às coisas que queremos fixar. Associando determinadas histórias, ajudamos à formação da memória de trabalho. É a sua consolidação. 

Uma outra dica, em relação à memória de trabalho, é que também podes desenvolver a habilidade de ouvir para compreender, de ouvir genuinamente. Eu diria até a palavra escutar. Escutar o outro para tentar compreender, de facto, a situação e se te habituares a escutar as outras pessoas e a ti próprio, vais ver que vai ser mais fácil para ti formares memórias mais duradouras. Tem, claramente, muito a ver com o estado de atenção em que estás quando recebes determinado estímulo, ou quando recebes determinada mensagem.    

Outro aspeto muito importante é a flexibilidade cognitiva, como vimos. Isto permite-nos libertar a criatividade, para ver as coisas de uma perspetiva diferente, para não nos focarmos tanto nos limites e encontrarmos novas oportunidades, que nos vão surgindo sistematicamente no caminho do dia a dia. Se uma maneira de resolver um determinado problema não está a funcionar, então podes, eventualmente, colocar o problema de uma maneira diferente. Nós podemos pensar fora da caixa e encontrar uma forma de enfrentar o problema, uma nova forma de enfrentar as situações do dia a dia. Com esta flexibilidade cognitiva isto é possível.  

Esta flexibilidade também pode ser utilizada para aproveitares eficazmente oportunidades inesperadas, para ultrapassares obstáculos de que não estavas à espera e para admitir que estás errado. Tantas vezes é tão difícil admitirmos que estamos errados e que precisamos de mais informações, de aprender mais. Portanto, é preciso desenvolver também esta função da flexibilidade. 

Para teres uma ideia, as crianças são muito mais inteligentes do que os adultos pensam. São capazes de mobilizar funções executivas, de resolver problemas, raciocinar e criar coisas, antes mesmo do 1º ano de idade, antes do desenvolvimento da linguagem, o que é absolutamente brutal.   

Em termos neurológicos as funções executivas dependem de uma área específica do nosso cérebro. Diríamos do córtex pré-frontal, também de outras regiões que estão interligadas ao córtex pré-frontal, mas sobretudo deste. Recordo aqui quando vimos a questão do sequestro da amígdala, quando o cérebro reptiliano, através de emoções fortes, captura a energia destinada ao resto do cérebro, o córtex pré-frontal é o primeiro a ser cortado. Portanto, todas estas funções executivas são desligadas quando tu estás num pico emocional. O que quer dizer que tens que te preparar previamente para, quando entrares nesse pico emocional, teres ferramentas para lidar com essas situações e poderes então resgatar estas funções executivas.  

Curiosamente, o córtex pré-frontal só está completamente maduro depois dos 20 anos de idade. E isto não significa que não esteja a funcionar antes disso. Sim, está funcional. Aliás, está demonstrado que aos 7 meses de idade há um córtex pré-frontal com atividade intensa, mas essa atividade ou essas capacidades e essas potencialidades só estão completamente formadas quando completamos mais ou menos 20 anos. A prova disso é que as crianças são capazes de resolver problemas e raciocinar, ainda antes do desenvolvimento da linguagem. Portanto, a prova de que o córtex pré-frontal é perfeitamente funcional é que as crianças conseguem resolver problemas, conseguem raciocinar, conseguem criar coisas. Mas também está documentado e comprovado que só aos 20 anos é que o córtex pré-frontal atinge a funcionalidade máxima, ou seja, quando tens o teu maior autocontrolo, a tua maior autodisciplina, quando tens a totalidade das tuas possibilidades, em termos de funções executivas.  

Curiosamente, também um estudo feito com crianças demonstra que crianças expostas a 2 idiomas diferentes, antes dos 7 meses de idade, desenvolvem mais eficazmente as funções cerebrais. Tem a ver com o estímulo de determinadas zonas do cérebro, que efetivamente as colocam numa posição de superioridade, em termos de funcionamento, porque há músculos que são ativados. 

Isto leva-nos a uma situação que também te pode ajudar a explicar outras coisas. Nós precisamos de dar tempo às crianças para elas resolverem os seus próprios problemas. Não corras atrás para ajudar, não vás a correr para ajudar, sê paciente. Ajuda a criança a criar, ela própria, a solução do problema. Porque é aqui que se desenvolve a autoconfiança, quando as crianças aprendem a resolver os seus próprios problemas. Eu recordo-me de quando meu filho era mais pequeno e caía com alguma frequência. Naturalmente, estava a aprender a andar. Toda a gente da família tentava segurá-lo e levantá-lo e eu dizia: “Não, não, deixem-no levantar-se sozinho, ele não precisa de ajuda. Se ele precisar de ajuda, ele vai pedir e vai-se manifestar nesse sentido.” Portanto, é muito importante deixar as crianças explorarem formas de resolver os seus problemas e isto é muito, muito importante para a formação da autoconfiança.  

Naturalmente que a nossa reação natural, enquanto adulto, é tentar ajudar as crianças, também já foi assim connosco, quando nós éramos as crianças. Mas, se nós resolvermos os problemas pelas crianças, elas não vão desenvolver esta habilidade e tornar-se-ão adultos dependentes e inseguros. E esta é, talvez, a causa mais frequente de vinculação insegura, que nós depois verificamos nos resultados e nos relacionamentos entre adultos. 

Depois, os adultos dizem: “Ah! não lhe faltou nada e ele não conseguiu, não é?” Às vezes falta, às vezes falta só tempo e espaço para aprender; às vezes falta confiança para aprender; falta algum estímulo positivo, para que tu possas aprender a errar, ou aprender errando. Às vezes, quando somos crianças, não nos deixam errar, tentam que sejamos mais perfeitos, que tenhamos um comportamento mais perfeito e nós esforçamo-nos muito, mas é difícil. Consequentemente, desenvolvemos esta crença de que não somos suficientemente capazes. Esta é uma armadilha da nossa mente e infelizmente está instalada em muitas, muitas pessoas.  

Voltando à questão das neurociências, que o córtex pré-frontal é a área mais vulnerável do cérebro. Como referido há pouco, quando te falei do mecanismo do sequestro da amígdala, afeta imediatamente esta área do cérebro. E também quando nos sentimos mais tristes, sozinhos, privados de sono ou em má condição física, o córtex pré-frontal e as funções executivas são os primeiros a sofrer e são os que mais sofrem. Todos nós sabemos que quando estamos mais tristes, mais deprimidos, mais ansiosos, mais cansados, começamos a pensar pior, começamos a raciocinar pior, começamos a se calhar, não ser tão responsáveis.  

Por outro lado, importa muito desenvolver as funções executivas do cérebro, porque quando temos melhores funções executivas somos mais felizes, sentimo-nos socialmente mais amparados e somos, também, muito mais saudáveis. E isto são conclusões de estudos científicos que foram feitos, ao longo de décadas, sobre este assunto.  

O nosso cérebro funciona melhor quando não estamos emocionalmente stressados. Portanto, é preciso aquietar as nossas emoções, para dar alguma tranquilidade ao nosso cérebro, para poder ativar as funções executivas. Porque o stress impede literalmente as funções executivas. Quando estamos tristes, por exemplo, filtramos pior as informações. Tendemos a valorizar demasiado informação que é relevante e temos pior capacidade de atenção seletiva. Se calhar, vamos dar atenção àquilo que é menos importante e vamos ignorar o que é mais importante de determinada situação. 

Por outro lado, quando estamos mais felizes temos uma maior capacidade de audição seletiva, ou seja, somos capazes de selecionar aquilo que queremos ouvir, as informações que queremos receber e as que realmente são importantes para nós. 

Por outro lado, as pessoas têm mais capacidade criativa quando estão mais felizes. Isto não significa que as pessoas mais tristes sejam menos criativas do que as mais felizes, mas que cada uma delas tende a ser mais criativa quando está mais feliz do que quando está triste. Isto também parece óbvio, quando eu me sinto melhor, mais equilibrado, mais feliz, mais pleno, naturalmente a minha criatividade vai funcionar bastante melhor.  

Se ainda não estás suficientemente convencido sobre as funções executivas, deixa-me dizer-te que as pessoas stressadas não podem ser as referências que elas gostariam de ser, não podem ser o exemplo para os filhos ou para os amigos, não podem receber o orgulho da família como gostariam de receber. É preciso ter, então, este controlo e este domínio emocional, que é possível através das funções executivas.  

O stress alimenta a crença da não-suficiência, o que torna tudo muito pior. 

Portanto, o conselho mais importante que tenho para te dar é: relaxa. Aproveita o momento, aproveita a vida e descontrai. Lembra-te que imperfeito é diferente de inútil e a imperfeição faz parte do caminho para a perfeição. Não sejas tão duro contigo mesmo, quando cometes um erro, porque isso deixa-te num estado em que as funções executivas são muito desativadas e violentadas até. E é altamente destruidor para o teu senso de autoconfiança. Lembra-te que toda a gente comete erros, portanto, toda a gente é imperfeita. Ser humano é ser imperfeito, como diria Fernando Pessoa: “adoramos a perfeição porque não a podemos ter, repugná-la-íamos se a tivéssemos”. Mas, infelizmente nem toda a gente sabe disso, há pessoas que se julgam perfeitas. Nós podemos ser uns verdadeiros idiotas e pensarmos que somos perfeitos. Isso será um problema individual, com o qual cada um terá de aprender a lidar, portanto, o mais importante de tudo é a tua humanidade. A tua humanidade é muito mais importante do que o teu conhecimento, do que as tuas capacidades ou do que as coisas perfeitas que tu fazes, ou que eventualmente possas fazer. E lembra-te que a maior fonte de stress é o sentimento de não seres suficientemente bom, não seres suficientemente capazes. Tem consciência disso todos os dias da tua vida. É muito importante, também, que todos nós sejamos capazes de acreditar que somos suficientemente bons, que somos suficientemente capazes para ser suficientemente bons. Vamos acreditar e vamos também fazer os outros acreditar que são suficientemente bons, criando uma onda de mais positividade e de uma vida bastante mais relaxada. Lembrando-nos também que todos nós estamos em evolução e todos nós podemos ser melhores. Todos somos suficientemente bons para o que precisamos de fazer a cada momento. Portanto, é preciso viver com esta plenitude e com esta confiança.  

O nosso cérebro vai funcionar melhor, porque, entretanto, não nos vamos sentir sozinhos e não nos vamos sentir isolados. 

Estamos juntos. E esta socialização é muito importante. Nós precisamos deste sentimento de pertença, de sentir que somos aceites e amados entre colegas, amigos e familiares e também, por ventura, que seremos amparados se tivermos alguma dificuldade.  

As pessoas que se sentem sozinhas e isoladas. ou que receiam ser abandonadas, mostram piores funções executivas do que aquelas pessoas que se sentem socialmente mais amparadas. E, por isso, é muito importante que desenvolvas as funções executivas.  

Mas agora, como?  Como desenvolver as funções executivas?   

Muito facilmente! 

Podes: brincar; contar histórias; dançar; utilizar a arte, a música, o desporto e qualquer tipo de interação humana. Sobretudo isso, é importante. Liberta a tua criatividade e potencia a interação com outras pessoas. Se o fizeres, vais estar a desenvolver eficazmente as tuas funções executivas.  

Em todas as culturas, as pessoas cantam, dançam, fazem desporto e jogam, por alguma razão devem fazê-lo, não é? Há muitas boas razões para estas atividades serem praticadas por todos os seres humanos, de todas as classes sociais, de todas as gerações, de todas as culturas, de todas as subculturas. Por isso, é exatamente esta a função que estas atividades têm: desenvolver as funções executivas. 

Por outro lado, praticar competências de socialização, de partilha de experiências, de confiança mútua, porque a vida é muito mais feliz quando é partilhada. 

Juntos somos mais fortes. 

Juntos somos mais confiantes e mais capazes. 

A partilha vai fazer com que sejamos mais disciplinados e mais resilientes, porque vamos criar um certo compromisso e uma certa complementaridade uns com os outros. 

Então, envolve-te. Envolve-te de corpo e alma em atividades e com pessoas.  

A melhor forma de melhorar as funções cerebrais é celebrar o espírito humano. 

Portanto, canta, dança, brinca, pinta, joga, envolve-te com pessoas, celebra este espírito humano. Fá-lo com a convicção de que estás a fazer isso para treinar as tuas funções executivas, as tuas competências de socialização, a tua capacidade de raciocínio, a tua criatividade e também o teu controlo inibitório, que te trarão mais virtude e mais capacidade de alcançar aquilo que tu desejas. 

Estamos juntos. 

Estamos a mudar o mundo, uma pessoa de cada vez e de certeza que, com as funções executivas ativadas e treinadas, vai ser muito mais fácil mudar o teu mundo.