Neste capítulo vamos falar sobre as crenças e sobre o papel que elas têm na construção da nossa vida, e vamos investigar um pouco mais como é que elas se formam e então qual é o significado que elas têm. 

As crenças são aquilo em que nós acreditamos e aquilo em que nós acreditamos acaba por se tornar parte da nossa identidade. 

Na pergunta “quem é que eu sou?” Eu também sou as minhas crenças. Eu também sou aquilo em que eu acredito. Como isto faz parte da minha identidade, acaba por influenciar de uma forma absolutamente determinante todos os resultados que obtenho na minha vida, a todos os níveis, porque as crenças vão afetar a forma como eu percepciono a realidade e ao afetarem a forma como eu perceciono a realidade - quer de forma consciente quer de forma inconsciente - vão afetar completamente a forma como eu tomo as minhas decisões, ou seja, afetando a minha perceção, vão afetar de uma forma absolutamente determinante a forma como eu tomo as minhas decisões. 

Este condicionamento causado pelas crenças acontece quer ao nível interno quer ao nível externo, mas, sobretudo, são mecanismos que operam no nosso mundo interior. As crenças têm também um papel absolutamente fundamental e determinante na maneira como nós pensamos e como nós sentimos. O sentimento, como vamos ver à frente, é uma forma de processamos as nossas emoções. 

É fácil chegar à conclusão de que boas crenças são bons alicerces para bons sentimentos, e más crenças podem ser a causa de sentimentos destrutivos. Por isso, é que é preciso ter muita atenção à questão das crenças. Importa mesmo dedicar uma atenção particular, porque as crenças são uma parte integrante da nossa identidade, influenciam os nossos sentimentos, os nossos pensamentos, os nossos comportamentos, ainda que muitas vezes elas operem num nível inconsciente. 

Costumo comparar as crenças a pequenos “cookies” ou pequenos programas que estão a correr num computador; quando tu ligas um computador há uma série de programas que arrancam. Sem esses programinhas as coisas não funcionam, o computador não funciona. E o que é que são na prática esses programas? São formas de acelerar processos que são comuns. 

E de onde é que vêm afinal as crenças? 

As crenças vêm da necessidade de nós aprendermos a simplificar a informação que nos chega. O nosso cérebro recebe uma grande quantidade de informação no dia-a-dia. Temos de fazer um filtro de alguma forma, e somos convidados pela vida e pelo nosso dia-a-dia a tomarmos uma série de decisões. Basicamente as crenças são como que lentes, como formas de simplificar estes processos, ou seja, são decisões que, no fundo, já estão tomadas. São processos que são automáticos e se desencadeiam de uma forma automática, muitas vezes eles nem chegam a estar conscientes, portanto, nós assumimos que é assim e ponto final, nem sequer pomos em causa. 

E é por isso que dizemos que as crenças atuam muito ao nível do inconsciente, porque, na verdade, é mesmo isso, elas atuando ao nível do inconsciente, elas influenciam de uma forma absolutamente determinante tudo aquilo que é o nosso comportamento, tudo o que são as nossas ações, tudo que são os nossos pensamentos, tudo o que são os nossos sentimentos, e nós nem damos conta. 

E é importante compreendermos e darmos conta de que estas crenças nos estão a influenciar, no sentido de tentar compreender quais é que nos empoderam - quais é que nos dão mais poder, mais força -e quais nos limitam. Infelizmente são mais as que nos limitam do que as que nos empoderam. 

Esta frase do Gandhi, é absolutamente deliciosa, ela demonstra que as nossas crenças se tornam os nossos pensamentos, os nossos pensamentos tornam-se nas nossas palavras, as nossas palavras tornam-se os nossos hábitos, os nossos hábitos formam o nosso carácter, e o nosso caráter torna-se o nosso destino. 

Mas estás a ver de onde é que isto tudo nasce? Nasce dos tais processos automáticos que muitas vezes são inconscientes, a que chamamos crenças. Isto é para que percebas o impacto que as crenças têm na nossa vida, de forma a que possas estar alerta e consciente de que isto está a acontecer, para poderes indagar e para poderes investigar dentro de ti quais são as crenças que te estão a limitar, a formar os teus pensamentos, as tuas palavras, os teus hábitos, o teu carácter... porque, no fundo, isso está a construir o teu destino. Mudar o destino passa muitas vezes por mudar esta estrutura de crenças. E isso é então uma matéria muito importante. 

Mas dentro da nossa cabeça não há só crenças, há outras coisas, e também importa indagar o que é que existe dentro das nossas cabeças.

Sobre as opiniões

Platão tinha uma frase engraçada que dizia que as opiniões estão algures entre a verdade e a completa ignorância, qualquer coisa está entre uma coisa e outra. E todos temos direito a ter opiniões. Temos opiniões e temos direito a elas. É um direito que nos é garantido nas sociedades livres, ainda que estas nossas opiniões sejam completos disparates. 

Sim! Nós temos o direito a ter opiniões completamente disparatadas. Agora, o maior disparate é nós pensarmos que estas nossas opiniões são verdadeiras e tentarmos impor estas opiniões a outras pessoas, e fazemos isto demasiadas vezes. E é preciso estar alerta para isto, para impor aos outros e para também não aceitar que te imponham opiniões sem fundamento.

 

Sobre os pensamentos

Dentro das nossas cabeças também existem pensamentos. 

E passamos quase todo o nosso tempo entre pensamentos que oscilam entre o passado e o futuro. 

Há uma estatística que diz que menos de metade do tempo durante o nosso dia-a-dia, nós estamos de facto concentrados no momento presente - é evidente que isto varia muito de pessoa para pessoa, mas eu acredito que esta estatística seja verdadeira. Mais de metade do nosso tempo, em média, nós passamos perdidos em pensamentos entre o passado e o futuro. E os pensamentos não são reais - é preciso termos atenção, compreender que os pensamentos não têm uma realização própria, não são propriamente reais, eles podem ser questionados.

E o problema muitas vezes não é o nosso pensamento, é a forma como acreditamos nele, e acreditamos nos medos em relação ao futuro e histórias em relação ao passado. As histórias do passado trazem muitas vezes a culpa, a vergonha, e algumas angústias às vezes também, muitas vezes relacionadas com os ressentimentos. E em relação ao futuro, temos muitos medos, somos muitas vezes afetados pelas ansiedades que esses medos geram. Mas aquilo que eu te gostava de salientar nesta fase, é que os pensamentos são normais. É normal, nós pensarmos. Mas, ainda assim, os nossos pensamentos merecem ser questionados, eles não são obrigatoriamente verdadeiros, eles não têm uma ligação à realidade. 

E que pensamentos são esses? 

Os nossos pensamentos baseiam-se muitas vezes num diálogo interior, além de estarem muito perdidos entre o passado e o futuro, portanto, não se centram no momento presente, que é quando a vida realmente acontece. Eles baseiam-se muito num diálogo interior entre um diabinho e um anjinho; a parte boa de mim e a parte menos boa de mim. E este anjinho é o que chamamos a nossa consciência. 

Mas consciência é algo mais amplo do que isso, mas, muitas vezes, relacionamo-nos com este diálogo interior, entre uma parte boa e uma parte menos boa de nós. Podem ser diálogos entre as nossas emoções e a nossa razão, podem ser diálogos entre o nosso lado luz e o nosso lado sombra. Existe alguma dicotomia. Este diálogo interior é de facto, para a maioria das pessoas fundamentado nesta dicotomia entre o bem e o mal, mas temos que reconhecer que é difícil compreender exatamente o que é que é bom e exatamente o que é que é mau. 

Mas, se uma parte dos nossos pensamentos é útil para criar estratégias e para enfrentar os desafios do nosso dia-a-dia, uma boa outra parte - e para muitas pessoas a maior parte - limita-se em colocar em causa todas as possibilidades e isto motiva muitas vezes a inércia. Há um processo que eu costumo falar, que é o processo de paralisação por excesso de análise. A paralisação por excesso de análise ocorre quando nós queremos pôr em causa todas as possibilidades e queremos pensar em prever todas as possibilidades, estar preparado para todas elas e, portanto, acabamos por paralisar. 

Ora, aquilo que está mais que comprovado - e até pela tua própria experiência deves concordar com isto - a maioria dos cenários que imaginamos não são reais e não têm nenhuma possibilidade de se realizarem, e quase sempre, aquilo que nos acontece, mesmo quando nós preparamos um plano A, um plano B, um plano C, um plano D, um plano E, e até um plano Z. 

Por isso a urgência de estarmos preparados internamente para todas as circunstâncias que a vida nos possa oferecer, e não obrigatoriamente estarmos preparados para circunstâncias específicas, ou seja, faz sentido nós estarmos preparados para aceitar as coisas como elas são e como elas se nos apresentarem para que possamos ter uma visão mais clara das oportunidades que cada circunstância da vida nos pode oferecer.

Eu acredito que todas as circunstâncias da vida, mesmo aquelas mais negativas, nos podem oferecer sempre boas oportunidades e, por isso, faz sentido nós quebrarmos este diálogo interior que está sempre a questionar e está sempre a pôr em causa todas as possibilidades e evitamos assim a paralisação por excesso de análise e simplesmente deixamos a vida fluir, deixamos que as coisas aconteçam, com profunda confiança na nossa capacidade de responder a qualquer circunstância que a vida nos ofereça. 

E as emoções

Continuando a investigar dentro das nossas cabeças, também há as emoções. As emoções são, na verdade, cadeias de reação físicas, que reagem aos nossos pensamentos ou as nossas percepções de alguma realidade. Não só em relação aos nossos pensamentos, mas à nossa leitura de uma determinada realidade. Quando tu, por exemplo, te deparas com algum perigo, tu não ficas a pensar; o teu corpo reage por ti. E estas reações instintivas e automáticas que surgem na sequência de uma determinada situação, por via de algum processo cognitivo ou não, são aquilo que designamos por emoções. 

De facto, são mecanismos automáticos desencadeados para dar resposta a situações. É o nosso instinto, é mais forte do que nós. E ele aparece de facto de uma forma muito repentina. 

Muito importante compreender ainda que a emoção não precisa de motivos reais, mas apenas percebidos, ou seja, é natural que a tua cadeia de reação, seja normal, as tuas reações sejam normais, o teu medo, sejam normais, quando tu estás perante um perigo real, mas as nossas emoções também são muitas vezes desencadeadas pelos nossos pensamentos e os nossos pensamentos são muito influenciados pelas nossas crenças. 

É preciso distinguir aquilo que é real e aquilo que é imaginário é preciso fazê-lo de uma forma consciente. O nosso cérebro não tem capacidade de distinguir entre aquilo que é positivo e aquilo que é negativo, também não tem a capacidade de distinguir entre aquilo que é real e aquilo que é imaginário. Portanto, se tu imaginas um cenário de perigo - ou seja, através do pensamento se tu crias um cenário de perigo ou então múltiplos cenários de perigo com que te podes deparar no futuro, e isto se calhar com vista a uma determinada preparação de alguma coisa que eventualmente te possa acontecer - pode parecer que é muito inteligente isso, mas, na verdade, estás a desencadear uma série de emoções negativas. O corpo reagirá a estes pensamentos como se eles fossem realidades, porque a perceção, de facto, está a condicionar a realidade e muitas vezes esta tua perceção está a fazer com que estas emoções se criem. Estas emoções que se gerem de uma forma completamente automática. 

Em termos de funcionamento do cérebro as nossas emoções têm prioridade, elas conseguem tomar conta do nosso ser. Deves saber do que é que eu estou a falar.... Então, é importante, percebermos aquilo que é real e aquilo que é imaginário, aquilo que de facto é positivo e aquilo que é negativo, para que o nosso cérebro possa contar com informação de qualidade, e a partir dessa informação ter a capacidade de gerar melhores emoções e de gerar também melhores decisões, melhores comportamentos e melhores resultados

Acredites ou não, todos nós tomamos decisões com base nas nossas emoções e depois acabamos por justificar estas nossas decisões com base em princípios racionais, ou seja, vamos tentar justificar racionalmente as nossas decisões. A forma de tomar boas decisões é gerar boas emoções. 

E para isso é preciso que tu sejas capaz de manter o teu íntimo - o teu ser - livre de preocupações falsas e de cenários que de facto não vão provavelmente ocorrer. Para isto é importante que mantenhas o teu íntimo livre de falsas preocupações e de cenários que muito provavelmente nunca vão ocorrer, além de ocorrerem no teu próprio pensamento, mas depois condicionarão as emoções. 

A emoção não precisa de motivos reais, mas apenas percebidos. E se tu não podes condicionar que te acontece, e aquilo que a vida te oferece - a verdade é que tu podes sempre controlar a tua reação perante aquilo que te acontece e a tua perceção daquilo que está a acontecer. 

Então, faz sentido treinarmos boas emoções para que o nosso íntimo esteja preparado para que as coisas corram bem e não pense sempre que o nosso pensamento mais diabinho vai ter razão e que as coisas vão sempre ser catastróficas e dramáticas como nós muitas vezes parecemos acreditar. As crenças têm um papel absolutamente determinante nesses processos.      

E os sentimentos?

Depois também há os sentimentos. E os sentimentos são a forma que o nosso pensamento tem para integrar as emoções com as razões. Basicamente estes sentimentos, são pensamentos que nós temos para interpretar estas emoções, e para acolher estas emoções de uma forma mais continuada. A emoção é sempre alguma coisa física, algum mecanismo de origem física e com um pico momentâneo. Dizem que as emoções não duram mais do que alguns segundos, mas os sentimentos ficam e, portanto, ficam a perdurar e muitas vezes também depois consolidam-se em novas crenças. 

Dentro das nossas cabeças além das opiniões, das emoções, sentimentos e pensamentos, existem ainda as crenças. E todos estes processos estão interrelacionados e são interdependentes. Isto para que tu compreendas a complexidade deste mundo interior com que nós lidamos todos os dias.