Já todos nós fomos magoados por várias pessoas ao longo da vida, inclusivamente por pessoas que amamos e a quem queremos bem.
 
Pode ser na sequência de um mal entendido, de uma disputa ou de uma discussão, mas há mágoas que ficam profundamente marcadas no nosso coração e na nossa mente.
 
Além da raiva, do ódio, da separação, surge muitas vezes o ressentimento e o prolongamento da dor parece não ter um fim. Até pode ficar adormecido, mas pronto a causar intenso sofrimento se despertado por uma simples recordação. Alguns teóricos especulam que este ressentimento pode somatizar-se no organismo e estar na origem de doenças e patologias graves, que muitas vezes causam a morte após um período lento e doloroso. 
 
Há ainda situações em que respondemos à falta do outro com uma nova falta - como se esta fosse desculpável e legítima - criando uma violenta espiral de dor e de sofrimento com resultados inevitavelmente catastróficos.
 
Perdoar surge como necessidade inalienável, não apenas para libertar o outro da falta cometida para connosco ou para alguém que nos está próximo, mas sobretudo para nos libertarmos a nós próprios do ciclo de dor, de sofrimento e de vingança. E é uma necessidade absoluta, independentemente de quem nos magoou, do seu eventual arrependimento e da falta praticada.
 
Por muito difícil que seja o processo de perdoar, o perdão é absolutamente essencial e é sempre mais vantajoso do que suportar as consequências fisicas e psicológicas - tão duras e tão duradouras - que o ressentimento provoca
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O mestre budista tailandês, radicado em França, Thich Nhat Hanh, explica que "a vontade de perdoar não é suficiente. Mesmo que você queira perdoar, você não consegue. Apenas a verdadeira compreensão pode trazer o perdão. E esse tipo de compreensão é possível apenas quando você vê o sofrimento (do outro).” Ora estas palavras do mestre, sugerem que é preciso ver além da dor que nos foi causada a nós mesmos e tentar compreender as circunstâncias em que a falta foi cometida, a pessoa por quem foi cometida, a história dessa pessoa e todo um conjunto invisível de fatores que importaria ter em conta para provavelmente perceber que, do ponto de vista do faltoso, a falta seria eventualmente desculpável. Claro que a mágoa nos impede de ser empáticos e de ver o ponto de vista do outro.
 
É importante separar o ato praticado do seu autor. Não quer dizer que o ato seja desculpável e muito menos passível de ser esquecido. Não se trata de emitir um salvo conduto para que a pessoa possa voltar a cometer a mesma falta esquecendo todas as consequências e danos causados. É compreender que, apesar do ato ser condenável e altamente reprovável, o seu autor é um ser humano errante, tal como nós, que seguramente também já magoamos alguém, em  menor ou maior medida. 
 
Os grandes mestres de todas as espiritualidades ensinam que se virmos as situações com verdadeira compaixão é possível perdoar qualquer ofensa. Seguramente que quanto maior for a mágoa, maior será o desafio e o crescimento espiritual que proporcionará.
 
É possível que o processo de luto pela perda causada pelo autor da ofensa se misture com o processo de perdão. Ambos os processos são importantes e podem ser interdependentes. Ter consciência clara dos pensamentos, das emoções e do que eles significam e o que representam, talvez seja o caminho mais viável para se irem removendo, camada a camada. No final, sentirá uma doce sensação de alívio; o seu coração estará mais puro e novamente disponível para amar.

Sim. É possível perdoar tudo!